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segunda-feira, 18 de abril de 2011

O TREM-BALA DOS FASCISTAS PODE PASSAR

Fonte: Folha de São Paulo, 18/4/2011.

Villa-Lobos nos deu para sempre o imortal trenzinho caipira. Com seus miseráveis, com seus desconhecidos, com seus emigrantes, com seus amantes, o trem caipira fala do deslocamento, do movimento, da despedida e de uma nova chegada, nova estação. É de chorar de tão bonito, de tão trágico, de tão humano. Porém, basta sair do Brasil e entrar na Europa, que o trem vira Outro. A Europa dá pena. Em primeiro lugar, porque não existe. Existe uma colcha de retalhos, muito mal costurada, feita de alhos com bugalhos. Falar de trem na Europa dá medo. Basta lembrar o nazismo e os trens fora dos horários normais, lotados de judeus em direção à morte em linha de desmontagem dos campos de concentraçãos invisíveis, feitos para não deixar restos, vestígios, pegadas. E falar em nazismo é falar nos rincões da Europa, as pequenas cidades, as pequenas regiões, bem longe do glamour de Paris, da movida de Madri, dos encantos de Roma ou de uma Berlim multifacetada. Não. A Europa dá pena porque é feita de gente muito pequena, gente muito hostil, uma gentinha muito fascista. Basta dar dois passos para fora das grandes cidades para constatar o óbvio: os antigos muros medievais continuam lá, porém aperfeiçoados, com versões revistas e melhoradas. Gente que já fez da Espanha um pesadelo franquista, já fez da Alemanha o horror nazista – basta lembrar que os nazistas ganharam as eleições democraticamente – já fez da Itália a farsa fascista. Já fez? É muito otimismo, perdão. A Itália é governada hoje por um partido político sustentado pelas maiores empresas do norte da Itália, algumas das mais ricas empresas do mundo, feitas pelos netos e bisnetos de imigrantes e cuja plataforma política é delenda imigrantes, morte aos imigrantes – lembro bem da resposta estupefata de alguns italianos a me dizer, “mas você quer comparar os africanos com os imigrantes italianos?”. Aliás, os fascistas são toscos, são obtusos, são filhos das putas, mas não são burros. Ontem na Itália eles fizeram um golpe genial de propaganda. Encheram um trem de “manifestantes”, puseram um nome-fantasia, “trem da dignidade” e despacharam-no para a França – não é a França que grita o tempo todo pelos direitos humanos? Não é a França a defensora da liberdade, da igualdade e da fraternidade? Então divirtam-se. O trem é de vocês. E o que fez o governo francês? Um governo às vésperas de novas eleições, nas quais, para variar, a extrema direita aparece muito bem na foto, à frente das pesquisas, então esse governo acuado, esse governo medroso, esse governo apavorado deu uma resposta à altura dessa Europa de fachada – bloqueou o trem, criou um novo muro de Berlim. Tudo, menos a negrada africana por aqui. Que a negrada desdentada se espalhe pela Itália suja, que a negrada faminta se vire nesta Itália desgovernada, Itália tosca – por que deixou esses desgraçados entrarem? Que seguisse nosso exemplo e os barrasse lá fora, lá nos países de origem deles – vamos ocupar militarmente esses países, como fizemos na Argélia, tomar conta deles, como na Argélia, ensinar para essa negrada que eles devem continuar para sempre trabalhando de graça para nós, extraindo o petróleo deles para nossas empresas e que eles nunca mais repitam o que os ingratos argelinos fizeram. Incompetentes italianos. Não fizeram isso, que se lixem agora. Enquanto isso, a Alemanha assiste de camarote – não sem garantir o funcionamento 24 horas de seus “centros de detenção” dos imigrantes turcos e africanos. Não participou da guerra na Líbia, não quer saber de trem dos outros nenhum – ela tem os próprios – quer apenas passar para o mundo a ideia de que ela é uma grande empresa, um grande negócio, o maior exportador da Europa – vendas, vendas e vendas – atentem para o outro significado de venda, algo feito para cobrir os olhos. Muito atenta à propaganda, elegeu uma mulher, uma “presidenta” para fazer isso, para ser a gerente do boteco, e assim fazer de conta que o passado passou, acabou, não retornará nunca mais. Ora, o recalcado retorna, é a lei de Freud – para os presidentes e para as presidentas. O trem dos imigrantes é o símbolo desse retorno do recalcado, desse fracasso chamado Europa. Em nome da democracia, o fascismo se imporá novamente. Vai ganhar as próximas eleições. Otimismo de novo. Já ganhou na Itália, já ganhou na França e já ganhou na Alemanha. O trem dos fascistas circula livremente e é muito bem recebido por onde passa. Triste Europa.

terça-feira, 29 de março de 2011

COBRA EGÍPCIA À SOLTA

Fonte: Mosi Secret in The New York Times, 28/3/2011.

Não é uma cobra americana, cobra criada, cobrinha de jardim. É uma cobra egípcia, uma cobra exótica, uma cobra africana, uma cobra do deserto, uma cobra-Outra, uma cobra estrangeira. Não é a pantera de Rilke, aquela esmorecida, arrefecida, morta no coração, um resto de pantera, nada-pantera. Essa é uma cobra escolhida por uma rainha, nada mais, a cobra de Cleópatra, adolescente desta vez, mas essencialmente africana, ardentemente africana, trazida à força de lá, trazida à ferros. E ela fugiu. Nova Iorque em pânico de novo, cidade assustada, mais uma vez cobre todas as suas portas, fecha todas as janelas, convoca todas as forças armadas, uma cidade morrendo de medo da cobra venenosa. O estrangeiro só fascina quando controlado, quando manietado, quando fechado entre quatro paredes. O estrangeiro livre é um perigo – ele não obedece mais. A cobra egípcia desliza agora à procura do deserto. Ela tem sede do deserto, ela tem fome do deserto, ela deseja o retorno. Lá, nas dunas, lá, no sereno da madrugada, lá no calor da miragem, lá é seu destino. É lá que a esperam. Lá vai a cobra egípcia, para bem longe de quem um dia a quis bibelô, a quis adereço, a quis só para fotografia. A cobra egípcia vive.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

TOBRUK


Um regimento dos granadeiros italianos desembarca em Trípoli entre 10 e 12 de outubro de 1912. Fotografia in La Repubblica, 25/2/11.

Eu sou um Afrika Korps. Estou em Tobruk. Meu sangue alemão dos Schmitz e dos Schwertners ferve, arde, quer vingar meu avô italiano ferido neste deserto, picado por um escorpião feroz. Foi em 1920 quando ele desembarcou na Líbia, transferido para as Tropas Coloniais em Trípoli. Durou 2 anos no deserto inclemente até que um escorpião o picasse. Ele sobreviveu à picada. Eu não. Eu sucumbi, eu padeço, eu grito esta dor. Eu manco. Meu avô derrotado por um escorpião. Inaceitável. Eu embarco agora nos Afrika Korps, eu luto em alemão para vingar os italianos humilhados, os italianos aprisionados. É outra guerra, você já está no Brasil, não importa. Eu viro um rato do deserto, logo eu, um leão, mas eu comando todos os Panzers, eu os faço correr, eu mato, eu venço. Ali onde meu avô sucumbiu, eu conquisto. Ali onde meu avô não foi, eu agora herói, eu Wüstenfuchs, raposa, o marechal de campo, O Libertador, Eu, Erwin Rommel, Führioso. Não haverá mais escorpiões neste deserto vermelho, esburacado, revirado, cemitério a céu aberto. É por você, vovô, é para você. Blitzkrieg. Eu construo falsos tanques com pedaços de árvores e restos de carros, eu, o rei das ilusões, eu ponho os ingleses para correr, amedrontados, despedaçados, ossos espalhados pela areia. Perguntem pelo meu nome em Mersa Brega, em Tripolitania, em Cirenaica, em Benghazi. Perguntem por mim em Bardia, em Salum, em Tobruk. Querido nono, é o que eu te ofereço. Nenhum ferrão irá mais te machucar. Eu, ferreiro, asseguro.

sábado, 1 de janeiro de 2011

NÓDOA

Capa de Enrico Arno para a edição da Harvest Books de “The Oedipus Cycle” de Sófocles [O Ciclo de Édipo - Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona], sem data, circa anos 60. Enrico Arno nasceu em 1913 em Mannheim, Alemanha e foi criado em Berlim. Seus estudos em letras, pintura e caligrafia foram frustrados pelas Leis de Nuremberg da Alemanha nazista, quando ele foi considerado um “mestiço em primeiro grau”, devido à sua ascendência materna judia. Fugindo dos nazistas, seus pais o levaram para a Itália e depois para os Estados Unidos, onde começou a trabalhar como desenhista de capas de livros e de discos em 1947. Foi também professor e morreu aos 77 anos em sua casa em Long Island (fonte: Sharlene Murphy, da biblioteca Elmer L. Andersen Library, da University of Minnesota, em Minneapolis, Estados Unidos).

“ÉDIPO:
Sou todo-nódoa?”

Édipo Rei de Sófocles na tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 77.

domingo, 12 de setembro de 2010

COMEÇO

“Das kleine schwarze von frau Schwartz” [tradução: “o dengoso scwarze da bela Schwartz”] por Wolfgang Schiller (“fotowosch” in flickr) em 19 de junho de 2010, Eutin, Alemanha.

“E parecia que faltava pouco para chegarem a uma decisão, e então começará uma vida nova, maravilhosa; e era claro para ambos que ainda estavam longe, muito longe do fim, e que o mais complicado e difícil estava apenas começando.”

Anton Tchekov em A Senhora com o Cachorrinho in Lendo Tchekov de Janet Malcolm. Tradução de Tatiana Belinky, Ediouro, 2005, p.198.