Fotografia de Bernard Plossu na exposição de Lucio Fontana na Itália, em 1989.
A força das correntes.
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sexta-feira, 24 de junho de 2011
FORÇA
sexta-feira, 10 de junho de 2011
BUNGA BUNGA
“Silvio Berlusconi – O homem que fodeu um país inteiro”Fonte: capa da edição européia da The Economist, 9/6/2011.
O verbo perfeito para definir a Itália hoje. Um país transformado em garota de programa. Eis aí a fantasia do fascistinha de pijama realizada. O sorriso comprova: a Itália está fodida.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
LÁPIS SOLARIS
No final dos anos 70, desembarca na França, como refugiados, o casal Vera e Milan Kundera, vindos de uma Tchecoeslováquia destruída pela invasão russa. Indo morar em Rennes, Milan Kundera ao se defrontar com as paredes vazias da nova casa, decide fazer alguns desenhos para recobri-las. Nunca mais parou. Quando da tradução de seu “A Arte do Romance” para os Estados Unidos, foi convidado a ilustrar a capa desta edição. A partir daí, outros convites surgiram, inclusive para obras de outros autores. O escritor italiano Antonio Tabucchi, a partir desta história, inventou uma nova em que termina citando Barthes:“Depois, ele abre o computador e escreve um e-mail para o cientista. “Caro cientista, ontem, em 7 de janeiro de 1977, fui até o Collège de France escutar a aula inaugural de um jovem filósofo que se chama Roland Barthes. Ele começou sua aula com uma frase que lhe envio porque ela pode ser útil ao senhor e a sua casa editorial. Cito-a literalmente: “A literatura trabalha nos interstícios da ciência: ela está sempre atrasada ou adiantada em relação a ela, como a pedra de Bolonha que irradia durante a noite aquilo que armazenou durante o dia, e por causa desta luz indireta ela ilumina o novo dia de amanhã. A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos interessa. Cordialmente, Milan Qundera [brincadeira com Kundera e com o leitor, pois é como se Tabucchi piscasse o olho agora dizendo, mas trata-se aqui de Kundera ou do Pereira de novo?]”.
Fonte: Antonio Tabucchi in Sostiene Kundera [“Sustenta Kundera”, uma paródia de seu livro “Sustenta Pereira”], La Repubblica, 5/6/2011 e Maxime Rovere, I Giochi Grafici Ritrovati [As brincadeiras gráficas reencontradas] in La Repubblica, 5/6/2011.
Duas observações: a aula inaugural de Roland Barthes na cátedra de Semiologia Literária aconteceu no Collège de France em 7 de janeiro de 1977. Há uma tradução excelente de Leyla Perrone-Moisés, pela editora Cultrix. Sobre a pedra de Bolonha, há uma referência linda a ela em Goethe no seu “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, onde Werther diz, em algum lugar que por preguiça não vou localizar, algo parecido com isso: “Dizem que a pedra de Bolonha, quando exposta ao sol, absorve os seus raios e reluz por algum tempo durante a noite”. Teria sido esta a fonte de Barthes? A hipótese se justifica por ser este livro de Goethe um dos prediletos de Barthes, como o demonstra muito bem no belíssimo “Fragmentos de um Discurso Amoroso”. Ainda sobre a pedra, e para homenagear a ciência e minha filha que estuda química, o físico brasileiro Fernando de Souza Barros, na revista Ciência Hoje 1, p. 50 (1982) conta que a primeira observação de um fenômeno fosforescente foi realizada pelo sapateiro-alquimista italiano Vincenzo Cascariolo, ao observar, por volta de 1630, a existência de uma luz persistente azul-púrpura nos resídios de queima de um minério conhecido como barita (sultafo de bário). Ele encontrou esse minério no Monte Paderno, perto de Bolonha, o qual denominou de lápis solaris, palavra latina que significa “pedra solar”. Esse minério ficou mais tarde conhecido como pedra de Bolonha ou fósforo de Bolonha. Cascariolo pensou ter descoberto a famosa pedra filosofal, que supostamente transformaria metal em ouro, quando, na realidade, apenas sintetizou sulfureto de bário. Uma outra homenagem, lápis solaris também é lápis-lazúli. Talvez, juntando tudo isso agora e mexendo e remexendo, a literatura seja justamente esta pedra que passa de mão em mão irradiando não só a luz do autor, mas a luz desse desencontro que ela provoca entre as intenções de quem escreve e aquilo que revela sem querer em uma escrita e as intenções de quem lê e a leitura sem querer de outros sentidos que às vezes se revelam muito tempo depois, então, essa pedra que passa querendo passar e ao mesmo tempo passando o que não se queria, o que não se previa, o que não se controla, é a pedra de Drummond, é o meio do caminho de Dante, é o inconsciente de Freud – passageiro passador.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O PAPA ESTÁ NU
Fotografia de Filippo Monteforte/Agence France-Presse-Getty Images in The New York Times, 26/5/2011.Sem querer...querendo, o artista italiano Oliviero Rainaldi fez a melhor estátua sobre o Eu já realizada. À pedido da Igreja Católica, era para fazer uma estátua-homenagem ao Papa João Paulo II, recentemente canonizado. Um esboço foi aprovado pelas autoridades eclesiásticas e lá foi o artista com cinzel e martelo retirar da pedra o que não era pedra, à la Michelangelo. O resultado está à mostra em uma praça na estação de trem Termini de Roma – por um breve período de tempo. Ninguém gostou da escultura de Rainaldi – alguns mais radicais a compararam a um imenso mictório a céu aberto. Eu achei uma obra-prima. Sensacional!! Rainaildi esvaziou o Papa – e não só o Papa. Ele demonstra que no interior do Eu, naquilo que as pessoas adoram chamar de “íntimo”, nas “profundezas” do Eu, o que existe é o mesmo que no meio de uma cebola, após se tirar camada por camada: o nada. Daí o fato que se conhece bem na psicanálise: há que recobrir o nada com o manto do Eu, um manto tecido de identificações, de histórias da carochinha, de fábulas, importantíssimas, vitais em um determinado momento da vida, para dar suporte, dar o peso de uma armadura, dar uma roupa, dar uma falsa unidade, uma ilusória unidade a isso que chamamos de Eu e que, no resto da vida, pode se tornar um imenso fardo de carregar, pesado demais, chato demais, incômodo demais. É por isso que Freud comparou uma análise a uma cirurgia, uma operação de subtração. É o que Rainaldi mostra em sua obra: o Eu está nu debaixo da capa. Ora, a nudez que assusta o Vaticano desta vez não é a sexual. Se trata de uma nudez mais radical. A nudez do Eu.
O esboço aprovado. Fotografia Jpeg in Corriere della Sera, 24/5/2011.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
OS ESTADOS UNIDOS SÃO DE MARTE
“Acusado libertado”Fonte: Libération, 20/5/2011.
Em um brilhante artigo publicado ontem e intitulado “Decoding DSK – What his fall says about transatlantic differences in attitudes to sex, power and the law” [Decodificando Dominique Strauss-Kahn – O que a sua queda diz sobre as diferenças transatlânticas – entre Estados Unidos e Europa – em relação ao sexo, ao poder e à lei], a britânica The Economist, lembra que em matéria de sexo, como na guerra, os europeus são de Vênus, enquanto os americanos são de Marte. Ou seja, os europeus riem dos puritanos norte-americanos que caem em desgraça quando descobertos pulando a cerca, ao contrário dos franceses onde ter duas casas é uma tradição, é motivo de orgulho – o mesmo para uma Itália governada por um Casanova de opereta, o fascistinha de roupão Silvio Berlusconi. A revista adverte que essa suposta superioridade européia traz o risco de criar uma cultura de silêncio e de impunidade que facilmente ultrapassa a fronteira entre o permitido e o ilegal, como nos casos de corrupção. Ela cita a acusação feita aos Estados Unidos de transformarem a justiça em um espetáculo, onde um acusado aparece algemado na mídia antes de ter sido declarado culpado por um júri, para o horror de uma Europa que considera isso inaceitável. Então, a revista conclui assim, de modo magnífico, seu argumento:
“Beyond such differences in legal cultures, one fact is inescapable. In America a modest African immigrant has obtained a swift response from the police to her complaint of sexual assault. Mr Strauss-Kahn’s innocence or guilt will be determined in court. But New York’s authorities have not shirked from arresting the head of one of the world’s leading international bodies, nor from demanding that he be kept in jail on remand. It is worth asking: would this have happened in Paris or Rome?”
Fonte: The Economist, 19/5/2011.
[Além dessas diferenças culturais em relação à lei, um fato é indiscutível. Nos Estados Unidos, uma pobre imigrante africana obteve uma rápida resposta da polícia em sua queixa de estupro. A inocência ou a culpa do sr. Strauss-Kahn será determinada na corte. Mas as autoridades de Nova Iorque não hesitaram nem um minuto em levar para a prisão o chefe de uma poderosa instituição internacional, nem em mantê-lo lá até segunda ordem. Vale a pena perguntar: e se isso tivesse acontecido em Paris ou em Roma?]
sexta-feira, 13 de maio de 2011
INIMIGO DO POVO
“É o símbolo das revoluções” - China proíbe o jasmim – Proibida a venda e censura na internet: a flor virou uma fora da lei”“Com medo da revolta, China cancela o jasmim – A repressão chinesa identificou seu último inimigo: o jasmim. Nos últimos dias, além da prisão de dissidentes, se acrescentou uma nova ordem da polícia: extirpar a cultivação da flor-símbolo da nação e proibir o comércio dos brotos que na China evocam harmonia e prosperidade”
Fonte: Giampaolo Visetti in La Repubblica, 12/5/2011.
Depois que o jasmim se tornou o símbolo da revolução na Tunísia, o governo chinês decidiu agir. A partir de agora, o nome “jasmim” está proibido. Foi extirpado da internet ao mesmo tempo que os bilhões de funcionários do Serviço Secreto, desde o dia primeiro de março, percorrem os mercados de flores do país inteiro para advertir os vendedores que o jasmim deve sair de circulação imediatamente. Queimem, enterrem, explodam os jasmins. É que, como diz brilhantemente Giampaolo Visetti, desta vez os comunistas chineses se depararam com um problema terrível. Eles não puderam aplicar em cima do jasmim aquilo que eles estão acostumados a fazer com as pessoas. Não puderam prendê-los nem torturá-los nem começar um processo de reeducação – o sonho do comunista chinês: ver um jasmim bater no peito e admitir sua culpa, andar de joelhos pelas principais ruas e avenidas da nação com uma placa nas costas, “sou um inimigo do povo”. Não puderam fazer com o jasmim o que estão fazendo com o prêmio Nobel da paz, Liu Xiaobo e com o artista Ai Weiwei: deixá-los atrás das grades até que confessem ser agentes do imperialismo ianque. Pobre China. O que será que eles vão fazer quando Gelsomina entrar em cena no magnífico A Estrada da Vida de Fellini? Alternativa a, vão mudar o nome dela para Chun? Chun? Espere, isso quer dizer primavera, primavera lembra flor e, desgraça, lá vem o jasmim de novo. Não serve. Alternativa b, vão colocar uma bola preta sobre a imagem dela e apagar sua voz – não existe mais essa personagem? Alternativa c, vão recolher todos os dicionários de italiano-chinês, para evitar a descoberta de que Gelsomina deriva de jasmim? Alternativa d, proibir todos os filmes de Fellini? Que patético fim para o comunismo. Jogo agora um buquê de jasmins sobre esse cadáver insepulto. Já vai tarde.
sábado, 7 de maio de 2011
BERNARDO BERTOLUCCI, O HOMEM QUE FEZ 38 ANOS DE ANÁLISE
Bernardo Bertolucci entrevistado por Federica Lamberti Zanardi. Fotografia Corbis, em Nova Iorque, 1996 in La Repubblica, suplemento Il Venerdi, 6/5/2011.Um encontro em Roma. Na casa de Bernardo Bertolucci em Trastevere, chega Federica Lamberti Zanardi para entrevistá-lo sobre o prêmio especial que o Festival de Cannes estará lhe entregando no próximo dia 11, a Palma de Ouro pela sua carreira no cinema. E aí, desse encontro belíssimo, desse encontro maravilhoso, nós ficamos com os restos, os pedaços, os fragmentos:
“Federica – Quando o Sr. fez Novecento [1900], tinha 32 anos e decidiu embarcar em um filme de 5 horas de duração.
Bertolucci – O grande sucesso de O Último Tango tinha me trazido uma sensação de onipotência. Assim, decidi levar adiante este desafio: fazer um filme sobre o nascimento do comunismo na minha Emília [Emília Romanha, um dos estados da Itália], usando o dinheiro de três distribuidoras norte-americanas. Eu adorei esta ideia de obrigar os americanos a pagar por esta enorme bandeira vermelha, debaixo da qual, no filme, os camponeses bailam como se fosse um grande céu. Uma grande esperança. Um sonho de olhos abertos. Isso que os franceses chamam rêverie, fantasiação. Eu gosto quando encontro em um filme essa ideia de rêverie. (…)
Federica – Em 1968, o Festival de Cannes foi interrompido pelos diretores da Nouvelle Vague em solidariedade pela greve dos operários. Hoje, a França fecha a porta aos desesperados à procura de direitos.
Bertolucci – Eu tenho a impressão que esta decisão seja um braço de ferro político com a Itália. Mas, sobre os direitos, me vem à mente uma frase de Godard. No filme The Dreamers [Os Sonhadores], usei alguns segundos de dois de seus filmes e lhe pedi orientação sobre como proceder com os direitos autorais. Ele me respondeu: “Ça va sans dire Bernardo, tu podes fazer o que quiser com meus filmes, mas lembre-se: não existem os direitos dos autores, mas somente os deveres deles”.(...)
Federica – Quando seu pai morreu, o Sr. declarou: passei da infância à velhice, sem atravessar a idade adulta.
Bertolucci – Veja só isso, eu reencontrei uma poesia de meu pai intitulada A Bernardo aos cinco anos. Ela diz assim: “Vieni a rifugiarti nella nostra ansia” [Venhar refugiar-se na nossa angústia]. Ele pensa através da poesia em sublimar o peso enorme daquilo que diz. E considera a angústia o único lugar seguro em que eu poderia me refugiar.
Federica – Ele dizia que o mal dele era necessário para a sua arte e que a psicanálise teria sido um desastre para ele.
Bertolucci – Ele tinha pânico da análise. Porque morria de medo de descobrir a verdade profunda recoberta pela segurança doméstica.
Fedrica – Ao contrário dele, o Sr. fez análise.
Bertolucci – E fiz uma daquelas que Freud chamava análise interminável: durou 38 anos. Passei por 4 analistas. Comecei aos 25 anos, com sintomas muito estranhos, misteriosos. Que desapareceram quase que subitamente. Mas aí eu já estava preso na rede da psicanálise.
Federica – Foi uma sedução intelectual...
Bertolucci – Todos pensam que a análise seja uma elaboração intelectual. Não é verdade. Ela é baseada sobre a força da intuição, das emoções. Através de uma palavra, a lembrança de um perfume, entendes algo que de outra maneira nunca chegarias a compreender.”
Fonte: entrevista de Bernardo Bertolucci a Federica Lamberti Zanardi in La Repubblica, suplemento Il Venerdi, 6/5/2011.
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