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sexta-feira, 18 de março de 2011

DESEJO

Estrada iluminada pelo tráfego de carros na cidade portuária devastada de Minamisanriku, na província de Miyagi. Fotografia Reuters-Kyodo in El País, 18/3/2011.

Sol nascente.

quinta-feira, 17 de março de 2011

ROTOS

Fonte: primeira página do jornal O Globo, 17/3/2011.

Os rotos se reuniram para falar do esfarrapado. Sobre o controle, era esse o nome da agência que o saudoso Agente 86, Maxwell “Max” Smart, trabalhava com a maravilhosa Agente 99. Dá para acreditar no Japão? Não. Dá para acreditar nos Estados Unidos, na Rússia e na Europa? Jamais.

quarta-feira, 16 de março de 2011

FUSÃO NUCLEAR

Anúncio in Zero Hora, 16 de março de 2011.

A ironia máxima é amanhã abrir a exposição “Titanic” em Porto Alegre.

terça-feira, 15 de março de 2011

EX-ÍTACA

Fonte: primeira página do jornal O Globo, 15/3/2011.

Você deve deixar Ulisses voltar para casa, ordenou Zeus. Poseidon obedeceu. Assim que Ulisses entrou para dentro dela, Poseidon a tomou para si. Quem pode mais?

segunda-feira, 14 de março de 2011

O SÉTIMO SAMURAI

Toshiro Mifune como Kikuchiyo em “Os Sete Samurais” de Akira Kurosawa.

Akira Kurosawa fez em 1954 “Os Sete Samurais”. Não é um filme. É uma obra-prima, uma obra de arte atordoante, maravilhosa, indispensável. Lá está o gigante Toshiro Mifune como Kikuchiyo, o coxo, o bêbado, o perdido, o errado, o desobediente, Édipo-colono que quer ser samurai. Cada cena de Kurosawa é uma pintura, é uma escultura feita de palavras, gestos e sons – a natureza está lá, dura, difícil, limitada, porém, fértil, possibilitadora, esperançosa – é o próprio final, a mesma terra que é cemitério é também plantação e colheita. Há duas cenas em sequência de uma grandeza, de uma humanidade, de uma poesia que deveriam estar expostas permanentemente nas ruas de todas as cidades do mundo. Revi ontem pela vigésima vez o filme todo, mas é nestas cenas que as lágrimas renascem, fazem redemoinho, despencam. Na primeira delas, antes do ataque dos bandidos, Kikuchiyo encontra na aldeia as armaduras de samurais mortos pelos próprios camponeses em tempos antigos. Inicia então um discurso memorável em que ele pergunta se os samurais ali presentes, os seis representados como círculos na bandeira de combate, enquanto ele, Kikuchiyo, está desenhado como um triângulo, aquele que representa a diferença absoluta, o sem nome e sem idade – ele não sabe como se chama, então ele apresenta aos demais uma “certidão” com o nome Kikuchiyo, só que pela data de nascimento ali inscrita, ele teria 13 anos, daí o fato dele agir muitas vezes como uma criança, um palhaço, o Mazaropi dos samurais, sendo escolhido pelas crianças da aldeia como o ídolo absoluto; elas chegam a fazer platéia para rir de suas imitações ou então tentativas de domar um cavalo, e, na hora em que ele vê o melhor dos samurais fazer uma ação arriscada e voltar do campo inimigo com um rifle capturado, ele também se arrisca, usa da astúcia máxima de se fazer passar de bandido e também consegue um rifle para, perplexo, ver todo seu esforço ser ridicularizado e condenado pelo líder dos samurais, que o coloca em seu lugar, o de não samurai, um desigual, uma ameaça para o grupo, e nesta hora, bem antes destas peripécias, este homem em pedaços pergunta a esse grupo de mestres se eles pensam que os camponeses são santos. E ele responde que não. Eles são bestas feras, bichos feras espertas, feras astutas que escondem suas riquezas, escondem suas mulheres, escondem quem de fato são. Mas quem transformou eles em feras, pergunta Kikuchiyo. E ele responde: vocês fizeram. Vocês, samurais, fizeram isso. É de vocês a responsabilidade. Vocês queimam suas casas, vocês destroem suas plantações, vocês roubam sua comida, vocês transformam eles em escravos, tomas suas mulheres e matam quem ousar resistir. Trata-se de uma impressionante inversão dialética – subitamente os bons viram maus, os mocinhos são também bandidos, aqueles que eles combatem podem ter sido, são ou serão eles mesmos um dia. Porém, isso se repete de um outro jeito na cena logo a seguir, quando os bandidos atacam a aldeia e queimam a casa da roda d'água, onde estava o velho da aldeia, que se recusara a ir para a área segura defendida pelos samurais, então, lá vai Kikuchiyo tentar ajudar, e, inesperadamente, ele encontra uma mulher ferida com um bebê no colo. Ela entrega o bebê vivo a Kikuchiyo e morre, enquanto ele olha apavorado para o bebê, transtornado, começa a chorar e passa o bebê o mais rápido possível para o líder dos samurais dizendo “eu fui esse bebê”. Subitamente se revela sua origem, suas raízes, seu chão, suas escolhas – aliás, pode-se fazer uma brincadeira séria com o sobrenome do ator. Kikuchiyo é aquele que faz a travessia do “Me Funai” grego presente em “Édipo em Colono”, “antes não ser”, para um ser, o ator que soube esvaziar seu ser em cada personagem incorporado, o pouco-de-ser “Mi Fune”, Mifune. É de chorar e agradecer o resto da vida a esse homem chamado Akira Kurosawa e a este ator da vida em sua capenguice e esplendor máximos, Toshiro Mifune. O Japão nos deu para sempre seu mais belo presente. Muito obrigado.

domingo, 13 de março de 2011

FIASCO

Crianças passam por testes de controle de radioatividade em Koriyama, área de evacuação da central nuclear de Fukushima. Fotografia de Kim Kyung Hoon/Reuters in El País, 13/3/2011.

O Japão é um fiasco. Esqueça a mitologia reproduzida na mídia sobre um povo educado, inteligente, preparado, resistente e que é capaz de tudo – e quando a mídia brasileira escreve e mostra isso, ela está gritando nas entrelinhas, “ao contrário do Brasil, burro, despreparado, desorganizado, uma zona”. O mesmo país que consegue montar um automóvel Toyota ou Honda em 5 minutos é o país que jamais conseguiu pedir perdão e iniciar uma reles indenização à China pelas atrocidades cometidas em Nanquim – mais de 20 mil mulheres estupradas e feitas escravas sexuais pelas tropas japonesas de ocupação. O mesmo país que nos deu o magnífico Akira Kurosawa e seus sete inesquecíveis samurais – ali está o melhor retrato de um outro Japão – é o país que nos dá essa irresponsável decisão de construir mais de 50 reatores nucleares sobre terreno movediço, sob risco de terremoto, sob risco de tsunami. Isso não é inteligência. Isso é desaforo, isso é o que os gregos chamavam de húbris, desmedida, desafio louco, arrogância estúpida. Eu não admiro a professorinha do jardim de infância que com uma única palavra “terremoto” consegue organizar a fila ordeiramente, corretamente, tranquilamente de todas as crianças da sala de aula. Eu não admiro ninguém correndo pelas ruas desesperado. Essa mesma ordem, eficácia e obediência é a razão pela qual esse tormento nuclear acaba de explodir. 50 reatores nucleares e ninguém protesta, ninguém se move contra uma empresa gananciosa e um governo podre? 50 reatores nucleares e não se vê nenhuma greve, nenhum quebra-quebra, nada nas universidades, nada nos centros de pesquisa, nada nos bares, nada nas vilas, nada em Tóquio? Fiasco.

sábado, 12 de março de 2011

NÃO

Pai e filho, que perderam a casa, diante dos destroços em Sendai, Japão. Fotografia Kyodo News via Associated Press in The New York Times, 12/3/2011.

Não se perderam.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

FUGA

Fotografia de Yasao Yamamoto, Japão.

“ÉDIPO:
Ouvi, fugi da pátria; mensurava
pelo estelário o quanto dela distava.
Queria achar um canto onde não visse
cumprir-se a infâmia desse mau oráculo.”

Édipo Rei de Sófocles na tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 76.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

ANALISANTE

“Bamboo – Sumi-e Brush Painting” de Chiura Obata (1885-1975), Japão e Estados Unidos.

“ÉDIPO:
Que decidiste, ó Zeus, fazer comigo?”

Édipo Rei de Sófocles na tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 73.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ÉDIPO NA AVENIDA

Kaikai e Kiki de Takashi Murakami em Times Square na parada do Dia de Ação de Graças (“Thanksgiving Day”) da loja Macy’s, ontem em Nova Iorque. Fotografia de Ian Francis em 25 de novembro de 2010.

Kaikai? Sensacional. Em português vira Cai-cai. É Édipo na avenida, o coxo, o manco, o rengo, o capengante, o humano que erra por esta Praça do Tempo, entrecruzamento da Broadway com a Bolsa, do sobe com o desce, do que fica ainda mais um pouco e do que vai embora, do Fantasma dividido no rosto, partido na alma, e que cai com a voz, cai de boca em Cristine, cai de quatro por ela, cai de cinco, cai de seis. Não há símbolo melhor desse Cai-Cai do que o Fantasma. E Kiki é Cristine. Onde o Fantasma for, lá estará ela! Espere. Mas não é o contrário no espetáculo? E quem é que está falando de ópera aqui?

terça-feira, 28 de setembro de 2010

CERRAÇÃO

“Escultura de niebla # 08025 (F.O.G.)” de Fujiko Nakaya no Museo Guggenheim Bilbao – instalação permanente no espelho de água que circunda o museu, com duração de 5 minutos, em horas incertas. Doação de Robert Rauschenberg.

Fios de névoa.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

ILUMINADO

“Confident”, 2004, gravura de Mikio Watanabe, Yokohama, Tóquio e Paris.

“Eles passeavam e conversavam sobre como estava estranhamente iluminado o mar: a água tinha um tom lilás, tão suave e tépido, e da lua se estendia sobre ela uma faixa dourada”.

Anton Tchekov em A Senhora com o Cachorrinho in Lendo Tchekov de Janet Malcolm. Tradução de Tatiana Belinky, Ediouro, 2005, p.183.

sábado, 7 de agosto de 2010

EM CASA, EM MOSCOU...

Fotografia de Nobuyoshi Araki, Japão.

...o que acontecera no quebra-mar, e a madrugada de névoa nas montanhas, e o navio chegando de Feodosia, e os beijos....