Mostrando postagens com marcador Lacan. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lacan. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de junho de 2011

PARA BOBBY FISCHER COM AMOR

Bobby Fischer por Harry Benson/Life Magazine. “Em uma de suas longas caminhadas durante a disputa do título mundial de xadrez contra Boris Spassky, da Rússia, na Islândia, Bobby Fischer e Harry Benson foram passear em um campo onde alguns cavalos selvagens pastavam, e um deles se aproximou de Fischer, que amava animais. “Harry, Harry, ele gosta de mim!”, Fischer falou. Mais tarde eles saíram procurando por eles novamente, mas não os encontraram. “Ele ficou desapontado, mas nunca falou nada sobre isso”, disse Benson.” (fonte: Dylan Loeb McClain in Capturing Bobby Fischer, The New York Times, 19/6/2011).

Fechado num apartamento no Brooklyn,
um menino faz da partida da Dama, a razão de encontrá-la
e perdê-la novamente. Mas agora sob
seu controle, fazendo a cidade inteira virar
sessenta e quatro casas do tabuleiro.
E com o cavalo do rei e com o cavalo da dama,
movimentos em eles, letras e pronomes,
ele pula de Nova Iorque para Zurique,
de Zurique para Mar del Plata,
de Mar del Plata para Estocolmo,
de Estocolmo para Leipzig,
de Leipzig para Reykjavik.
Partidas.
Fechado numa casa em Carazinho,
um menino descobre com o outro como derrotar
a Variante do Dragão. Dragão Verde que um dia
o pai contou, descontou, foi. Dragão.
E a Dama?
De Ruy Lopez à Defesa Siciliana,
da Defesa Índia do Rei à Abertura Inglesa,
esse guri jogado, jogador,
um peão,
perde o grande torneio de Passo Fundo.
Às damas.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

LÁPIS SOLARIS

No final dos anos 70, desembarca na França, como refugiados, o casal Vera e Milan Kundera, vindos de uma Tchecoeslováquia destruída pela invasão russa. Indo morar em Rennes, Milan Kundera ao se defrontar com as paredes vazias da nova casa, decide fazer alguns desenhos para recobri-las. Nunca mais parou. Quando da tradução de seu “A Arte do Romance” para os Estados Unidos, foi convidado a ilustrar a capa desta edição. A partir daí, outros convites surgiram, inclusive para obras de outros autores. O escritor italiano Antonio Tabucchi, a partir desta história, inventou uma nova em que termina citando Barthes:

“Depois, ele abre o computador e escreve um e-mail para o cientista. “Caro cientista, ontem, em 7 de janeiro de 1977, fui até o Collège de France escutar a aula inaugural de um jovem filósofo que se chama Roland Barthes. Ele começou sua aula com uma frase que lhe envio porque ela pode ser útil ao senhor e a sua casa editorial. Cito-a literalmente: “A literatura trabalha nos interstícios da ciência: ela está sempre atrasada ou adiantada em relação a ela, como a pedra de Bolonha que irradia durante a noite aquilo que armazenou durante o dia, e por causa desta luz indireta ela ilumina o novo dia de amanhã. A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos interessa. Cordialmente, Milan Qundera [brincadeira com Kundera e com o leitor, pois é como se Tabucchi piscasse o olho agora dizendo, mas trata-se aqui de Kundera ou do Pereira de novo?]”.

Fonte: Antonio Tabucchi in Sostiene Kundera [“Sustenta Kundera”, uma paródia de seu livro “Sustenta Pereira”], La Repubblica, 5/6/2011 e Maxime Rovere, I Giochi Grafici Ritrovati [As brincadeiras gráficas reencontradas] in La Repubblica, 5/6/2011.

Duas observações: a aula inaugural de Roland Barthes na cátedra de Semiologia Literária aconteceu no Collège de France em 7 de janeiro de 1977. Há uma tradução excelente de Leyla Perrone-Moisés, pela editora Cultrix. Sobre a pedra de Bolonha, há uma referência linda a ela em Goethe no seu “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, onde Werther diz, em algum lugar que por preguiça não vou localizar, algo parecido com isso: “Dizem que a pedra de Bolonha, quando exposta ao sol, absorve os seus raios e reluz por algum tempo durante a noite”. Teria sido esta a fonte de Barthes? A hipótese se justifica por ser este livro de Goethe um dos prediletos de Barthes, como o demonstra muito bem no belíssimo “Fragmentos de um Discurso Amoroso”. Ainda sobre a pedra, e para homenagear a ciência e minha filha que estuda química, o físico brasileiro Fernando de Souza Barros, na revista Ciência Hoje 1, p. 50 (1982) conta que a primeira observação de um fenômeno fosforescente foi realizada pelo sapateiro-alquimista italiano Vincenzo Cascariolo, ao observar, por volta de 1630, a existência de uma luz persistente azul-púrpura nos resídios de queima de um minério conhecido como barita (sultafo de bário). Ele encontrou esse minério no Monte Paderno, perto de Bolonha, o qual denominou de lápis solaris, palavra latina que significa “pedra solar”. Esse minério ficou mais tarde conhecido como pedra de Bolonha ou fósforo de Bolonha. Cascariolo pensou ter descoberto a famosa pedra filosofal, que supostamente transformaria metal em ouro, quando, na realidade, apenas sintetizou sulfureto de bário. Uma outra homenagem, lápis solaris também é lápis-lazúli. Talvez, juntando tudo isso agora e mexendo e remexendo, a literatura seja justamente esta pedra que passa de mão em mão irradiando não só a luz do autor, mas a luz desse desencontro que ela provoca entre as intenções de quem escreve e aquilo que revela sem querer em uma escrita e as intenções de quem lê e a leitura sem querer de outros sentidos que às vezes se revelam muito tempo depois, então, essa pedra que passa querendo passar e ao mesmo tempo passando o que não se queria, o que não se previa, o que não se controla, é a pedra de Drummond, é o meio do caminho de Dante, é o inconsciente de Freud – passageiro passador.

terça-feira, 31 de maio de 2011

FUSÃO

Barbara Hepworth por Jorge Lewinski/The Lewinski archive at Chatsworth in “Barbara Hepworth: Queen of the Stone Age” de Jonathan Jones in The Guardian, 2/5/2011.

O que fazer do furo? Habitá-lo.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O PAPA ESTÁ NU

Fotografia de Filippo Monteforte/Agence France-Presse-Getty Images in The New York Times, 26/5/2011.

Sem querer...querendo, o artista italiano Oliviero Rainaldi fez a melhor estátua sobre o Eu já realizada. À pedido da Igreja Católica, era para fazer uma estátua-homenagem ao Papa João Paulo II, recentemente canonizado. Um esboço foi aprovado pelas autoridades eclesiásticas e lá foi o artista com cinzel e martelo retirar da pedra o que não era pedra, à la Michelangelo. O resultado está à mostra em uma praça na estação de trem Termini de Roma – por um breve período de tempo. Ninguém gostou da escultura de Rainaldi – alguns mais radicais a compararam a um imenso mictório a céu aberto. Eu achei uma obra-prima. Sensacional!! Rainaildi esvaziou o Papa – e não só o Papa. Ele demonstra que no interior do Eu, naquilo que as pessoas adoram chamar de “íntimo”, nas “profundezas” do Eu, o que existe é o mesmo que no meio de uma cebola, após se tirar camada por camada: o nada. Daí o fato que se conhece bem na psicanálise: há que recobrir o nada com o manto do Eu, um manto tecido de identificações, de histórias da carochinha, de fábulas, importantíssimas, vitais em um determinado momento da vida, para dar suporte, dar o peso de uma armadura, dar uma roupa, dar uma falsa unidade, uma ilusória unidade a isso que chamamos de Eu e que, no resto da vida, pode se tornar um imenso fardo de carregar, pesado demais, chato demais, incômodo demais. É por isso que Freud comparou uma análise a uma cirurgia, uma operação de subtração. É o que Rainaldi mostra em sua obra: o Eu está nu debaixo da capa. Ora, a nudez que assusta o Vaticano desta vez não é a sexual. Se trata de uma nudez mais radical. A nudez do Eu.

O esboço aprovado. Fotografia Jpeg in Corriere della Sera, 24/5/2011.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

BALANGANDÃ

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 18/5/2011.

Na maravilhosa charge de Chico Caruso, eis que o ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, vem dar seu apoio moral ao chefe do FMI, Dominique Strauss-Kahn. É que no mesmo dia da prisão de Strauss-Kahn, o ator admitiu ter tido um filho com a empregada da casa. Ora, há uma diferença enorme entre o ato de Schwarzenegger o e o ato de Strauss-Kahn. Até onde se sabe, houve atração mútua e consentimento para Schwarzenegger e houve estupro no caso de Strauss-Kahn. Porém, uma questão toca a ambos. É aquela que o gigante Dorival Caymmi imortalizou: o que é que essas baianas têm? Uma camareira, a outra empregada. E as duas desequilibraram, desnortearam, enlouqueceram esses homens. Será que foram os torços de seda delas? Será que os brincos de ouro? Ou as sandálias enfeitadas? O que leva um homem a cair por cima de uma mulher? Aqui Caymmi novamente é brilhante. Ele diz: “quando você se requebrar, caia por cima de mim”. É tão lindo isso. Há um pedido em jogo, e não a violência. Há condição, a espera, esse “quando” magnífico. Para além de querer interpretar algo que só pode ser feito escutando um por um a esses homens, o pedido de Caymmi é que essa baiana caia por cima dele – não é ele que cai sobre ela. O conjunto dos homens não cai, pois não requebra, é duro, é inflexível. Daí esse “we”, esse “nós” que supostamente simbolizaria a força, o poder, porém Caymmi sorri e acrescenta...a força de fazer um pedido. A queda está do lado delas, essas que não fazem conjunto, pois não ficam paradas no mesmo lugar, e por isso requebram, como requebram, daí a força do sexo feminino. Daí o pedido dos fracos, dos masculinos, onde cair também quer dizer ficar caidinha por esse homem, significa parar por um momento a deriva ou, quiçá, para sempre, e agora recobrir esse homem, grudar em sua pele, o dois virar o um – e aí, só aí, pode-se responder o que é que a baiana tem. Ela tem aquilo que me falta, aquilo que não tenho, aquilo que busco, aquilo que não sou, aquilo que vai me completar. Ela tem o bom fim do amor.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

ROMA

Uma fita ou banda de Möbius, um espaço topológico obtido pela colagem de duas extremidades de uma fita, após efetuar meia torção numa delas. Deve seu nome a August Ferdinand Möbius, matemático e astrônomo alemão, que a estudou em 1858. A querida artista Lygia Clark diz assim sobre seu desencontro com essa banda: “Uma fita de Moebius quebra os nossos hábitos espaciais: direita-esquerda, anverso e reverso, etc. Ela nos faz viver a experiência de um tempo sem limite e de um espaço contínuo” (in “Livro-Obra”, 1983, p. 151).

“Façamos agora a fantástica suposição de que Roma não seja a habitação de seres humanos, mas um ser psíquico com um passado de análoga extensão e riqueza, um ser, portanto, em que nada do que uma vez aconteceu tenha se perdido, em que ao lado da última fase de seu desenvolvimento todas as anteriores ainda continuem existindo. Isso significaria para Roma, portanto, que os palácios imperiais e o Septizonium de Sétimo Severo ainda se elevariam em sua antiga altura sobre o Palatino, que o Castel Sant'Angelo ainda ostentaria em suas ameias as belas estátuas que o adornavam até o cerco dos godos etc. Mais ainda, porém: no lugar do Palazzo Caffarelli, sem que fosse necessário demoli-lo, estaria outra vez o templo do Júpiter capitolino, e não apenas em sua última forma, como o viam os romanos do tempo dos césares, mas também nas mais antigas, quando ainda tinha aspecto etrusco, e era ornamentado com antefixas de argila. Onde agora está o Coliseu, também poderíamos admirar a desaparecida Domus aurea de Nero; na Praça do Panteão, encontraríamos não apenas o Panteão atual, tal como este nos foi legado por Adriano, mas também, sobre o mesmo terreno, a construção original de M. Agripa; o mesmo solo, inclusive, sustentaria a igreja Maria sopra Minerva e o antigo templo sobre o qual foi construída. E para evocar uma ou outra dessas vistas, talvez bastasse apenas que o observador mudasse a direção de seu olhar ou o posto de observação.”

Sigmund Freud em “O Mal-Estar na Cultura” (1930). Porto Alegre: L&PM ed., 2010, pp. 52-53. Tradução do alemão de Renato Zwick.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

ITÁLIA

Fonte: Andrea Montanari in La Repubblica, 13/4/2011.

Sigmund Freud, quando estava assim meio down, não ia para Porto Alegre. Ia para a Itália. Ia umas 50 vezes por ano para a Itália. A Itália era uma espécie de elixir para ele, uma espécie de paraíso, uma espécie de utopia. Lá ele reencontrava Leonardo, lá ele se extasiava com Michelangelo, lá ele se deparava com a metáfora mais perfeita da psique humana, a cidade de Roma e suas ruínas, suas reconstruções, suas histórias sobrepostas de tal maneira que em uma mesma cidade convivem séculos diferentes, a época mais longínqua com a mais recente, a única cidade do mundo que é uma banda de Moebius, ou seja, que você caminha pelo mais antigo e de repente, sem perceber, está caminhando pelo mais moderno – é uma bela definição para o inconsciente e foi dada por Jacques Lacan: o inconsciente não está no “interior” do sujeito, escondido ou soterrado, na infância, nem no “exterior”do sujeito, à mostra, na cara, na vida adulta, mas está na conjunção, na fusão, na condensação do interior com o exterior. Como se uma fotografia fosse sobreposta à milhares de outras fotografias, e aqui já retornamos a Freud. É esse o sujeito dividido que o Eu tenta dar uma fachada de unidade, tenta fazer pose de uma coisa só, a coisa que acredita ser aquilo que pensa, a coisa que se quer dono do pedaço quando é no máximo inquilino, paga aluguel direitinho sem se dar conta desta conta. Pois bem, eu que volto umas 300 vezes por ano para a Itália, me deparei hoje com essa notícia deliciosa, saborosa, apetitosa. A notícia diz que na belíssima região da Lombardia, na cidade de Brianza, ao norte de Milão, a seção regional do partido político fascistinha Povo da Liberdade presenteou o primeiro ministro fascistão Silvio Berlusconi com um kinder-ovo gigante de páscoa de 2 metros de altura. E aí, logo depois da meia-noite – quem disse que a política italiana não é inventiva, não faz uma clara referência à Cinderela? - qual foi o brinquedinho que saiu para fora da abóbora-ovo? Saiu Charlotte Crona tocando violino!! Sensacional!! Quem é Charlotte Crona? Trata-se de uma mulher...espere, como defini-la? Ela é, digamos, uma surpresinha, uma artista prendada, uma sueca que toca violino muito bem. Reparem no toque, ai, ai, ai, de cultura desta cereja no topo do ovo: ela toca violino!! Eu estou encantado, fascinado, esqueci de todas as dores. Não me interessa mais o desgoverno da Itália, não me interessam os processos judiciais contra o primeiro ministro, não me interessa mais a dor que não pode ser publicada. Charlotte Crona saiu do ovo tocando violino! É isso a Itália! Coisas de magia.

segunda-feira, 28 de março de 2011

RUMO À ESTAÇÃO ISSO

A escritora libanesa Joumana Haddad em fotografia de divulgação.

No indispensável Ela do jornal O Globo do último sábado, a imprescindível Bety Orsini trouxe pela mão Joumana Haddad. Olha, eu não peço mais que imitem o Ela. Só peço que o imprimam igualzinho. Que os jornais casmurros de São Paulo o façam – afinal de contas o jornal do futuro já não traz só para os leitores da capital o suplemento The New York Times? Ora, ora, o que é este suplemento comparado ao Ela? Nada. Que meu Diário da Manhã de Carazinho o faça. Já imaginaram o que será de Carazinho com Ela? E que Curitiba um dia viva para sempre com Ela. Curitiba com Ela seria uma epifania. Para uma cidade acostumada com a importação de colunistas e artigos de São Paulo – seria o eco da antiga província em relação à capital? - imprimir o Ela inteiro não custa muita coisa, custa? No mínimo seria trocar São Paulo pelo Rio de Janeiro. Que alívio! Bom, como eu estava dizendo antes de sonhar, esta querida Joumana Haddad, esta linda libanesa, dengosa autora do recém-lançado “Eu matei Sherazade” (editora Record), falou muitas coisas. Falou de sua infância triste, do colégio de freiras em que passou 14 anos enfurnada onde ela brilhantemente resumiu todo o ensino que recebeu em uma frase: “Agora você executa as ordens, depois, enventualmente as contesta”. E aí ela fala de seu encontro com Sade, com “Justine”, e do modo como essa leitura foi seu batismo na subversão. A entrevista termina com Joumana dizendo que ser árabe hoje significa “dominar a 'arte da esquizofrenia', significa que você tem que ser hipócrita, que sua vida, suas histórias têm de ser abafadas, tolhidas e codificadas: reescritas para agradar aos guardiões vestais da castidade árabe, para que estes possam ficar sossegados em relação ao fato de o delicado hímen árabe estar protegido do pecado, da vergonha, da desonra ou da mancha”. Ela disse muito mais, mas aí remeto o leitor ao jornal. Lembrei muito de Joumana ao ler a ótima reportagem de Neil MacFarquhar no The New York Times sobre a sombra do ditador derrubado, do ditador caído, do ditador vencido no cotidiano do Egito pós-Mubarak. A reportagem veio ilustrada com essa fotografia sensacional do metrô do Cairo - ver abaixo. A pergunta que MacFarquhar lança é o que fazer da sombra de um ex-ditador? Pois eu refaria a questão de outro modo. Se para Joumana o encontro com Sade foi decisivo, para mim foi com Freud. Freud viveu atravessado, dividido, partido ao meio com a descoberta surpreendente que não basta matar Sherazade nem tampouco destruir as estátuas do ditador ou apagar seu nome no metrô. Isso é fichinha perto da tarefa árdua, difícil e trabalhosa de dobrar um outro ditador chamado Supereu. Este não habita o mundo lá fora, mas está internalizado, está nas entranhas do sujeito, é a base em que se alicerça os fundamentos de sua razão – daí Lacan ter escrito o memorável “Kant com Sade” (presente em seus “Escritos”, publicado no Brasil pela Jorge Zahar). Que a razão esteja contamidada pela radiação do Supereu, que esteja danificada, que não fique nada razoável com a presença deste corpo estranho, desses pensamentos estranhos, dessa voz implacável e muitas vezes cruel, traz para o debate algo que ultrapassa a mera revolução das ruas ou a troca de colégio ou a abertura das pernas. Há uma outra subversão à espera do sujeito. Como operar uma transformação de si mesmo longe de si mesmo? Este é o convite da psicanálise. Das ruas à análise. Não que a revolução das ruas não seja necessária. Porém, a estação análise exige outro tipo de ato. Um ato de separação, um ato de perda, um ato de adeus a si próprio. Onde Isso era, Eu deve ser. Só que este Eu que vai para a estação Isso já não pode ser chamado de Eu. Quem chegou não é o mesmo que partiu.



Um passageiro do metrô na estação Mubarak, embaixo da praça Ramsés, no Cairo. Um grupo de revolucionários apagou o nome da estação do mapa do metrô e substitui-o pelo nome “Jan. 25 Mártires”. Trabalhadores logo apagaram esse nome também. Fotografia de Ed Ou para o The New York Times, na reportagem de Neil MacFarquhar, “Hosny Mubarak's Shadow Sill Falls Over Egypt” em 25 de março de 2011.

segunda-feira, 21 de março de 2011

IARA

Dilma Rousseff e Barack Obama depois de recepção para o presidente no Palácio do Alvorada. Fotografia de Wilson Pedrosa/AE na primeira página do jornal O Estado de São Paulo, 20/3/2011.

A belíssima fotografia de Wilson Pedrosa me desconcertou. O que significa esse encontro de dois presidentes em frente ao espelho d'água do Palácio do Alvorada? A escolha de nossa presidente não poderia ter sido mais simbólica, pois do outro lado do espelho estão essas magníficas banhistas de Alfredo Ceschiatti, também conhecidas como Iaras. Estou tentando continuar o raciocínio mas Olavo Bilac não deixa. “Vive dentro de mim, como num rio, uma linda mulher, esquiva e rara”. É demais, não? Vive dentro de mim. Poderia parar neste verso que já seria obra-prima. “Num borbulhar de argênteos flocos, Iara, de cachinhos dourados e corpo frio”. Corpo frio? Mas que diabos Bilac quer dizer com isso? Por que Iara teria o corpo frio? Água fria do rio é uma coisa, mas corpo frio? Ele continua assim, “entre as ninféias a namoro e espio: e ela, do espelho móbil da onda clara, com os verdes olhos úmidos me encara, e oferece-me o seio alvo e macio”. Lindo demais. “Oferece-me o seio alvo e macio”. Me perdi neste seio, nessa alvura, nessa maciez, nesses argênteos flocos. “Oferece-me o seio alvo e macio”. Há que repetir isso em voz alta, declamar com ardor. Como é genial esse Bilac! O poema não termina assim: “precipito-me, no ímpeto de esposo, na desesperação da glória suma [aqui Dilma está dizendo a Obama: cuidado com a desesperação da glória suma na Líbia ou, de forma mais lacaniana, suma logo da Líbia!], para a estreitar, louco de orgulho e gozo... [que coisa linda esses três pontinhos no poema. Por outro lado, essa menção ao gozo, ao perigo do gozo, ao precipício do gozo, ao que está além do gozo, me parece uma clara evocação do que não pode ser escrito, então esses três pontinhos estão no lugar daquilo que não se fala ou, melhor, daquilo que já não pode mais ser falado, pois o sujeito que fala já não existe mais]. E corre o rio “mas nos seus braços, ai, acabo de citar mal, o original diz nos meus braços, a ilusão acaba, se esfuma [esse esfuma é demais], e a mãe d'água, exalando um ai piedoso, desfaz-se em mortas pérolas de espuma”. Espetacular! “Desfaz-se em mortas pérolas de espuma”! Maravilhoso poema! Sensacional! A mãe morreu, daí o corpo frio. Agora, o que continua misterioso, e eis aí o grande artista que foi Alfredo Ceschiatti, é por que ele chama sua obra de “Iaras”. Como assim? Iara não é só uma? Por que Alfredo Ceschiatti duplicou Iara? Talvez a arte seja justamente esse movimento de reviver aquilo que se perdeu, que partiu, a escultura de uma saudade, a presença da ausência. Uma derradeira observação: Iara foi também sereia. E aí fica mais simbólico ainda o ato de Dilma para com Obama: nesse tempo de “Aurora da Odisséia”, há uma “Alvorada” diferente, com um outro canto das sereias, que fala de banhos, de seios, da morte também, mas não mais da morte matada, mas da outra, a morrida, daquilo que é esquivo e raro, a palavra na política, os encontros possíveis daqueles que decidem fazer de um palácio a morada das palavras, dos acordos, enquanto vida houver. Estará nosso Ulisses com os ouvidos tapados de cera?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

RATOS


Fonte: primeira página da Zero Hora, 23/2/2011.

Depois da saída de George W. Bush da presidência dos Estados Unidos, eu estava com saudade dos grandes filhos da puta. Na categoria dos filhos da puta, há os pequenos filhos da puta e há os grandes filhos da puta. Kadafi pertence a esta divisão. “Capturem os ratos. Tirem-nos de suas casas e acabem com eles, onde quer que estejam”. É a frase do ano. Nunca antes se ouviu coisa parecida. Aliás, relembrando Lacan, quando um ditador começa a falar de ratos, sem querer, está falando de si mesmo - é o que significa receber a própria mensagem de forma invertida. Ora, qual é a maior arma deste pútrida, deste calhorda perigosíssimo? São exatamente esses esfomeados, estropiados, esses fodidos que ele carinhosamente chama de “ratos” - em um outra variante, ele os chama de “agentes do imperialismo ianque”. A Itália e a Europa acompanham em pânico o desfecho desta revolução. Há o pavor de que, como vingança, essa ratazana-mor que se pensa gato abra as comportas para que os “ratos” invadam o continente europeu através da ilha de Lampedusa. Hordas de “ratos”, milhares de “ratos” se espalhando no meio de armanis e pradas, chanéis e mercedinhos, à procura de comida, à procura de abrigo, à procura do paraíso de Dante. Um terror, um pesadelo inimaginável. Ontem o fascista de plantão, Umberto Bossi, uma espécie de Kadafi-dois-ponto-zero, representante de todas as indústrias da parte norte da Itália, a parte “nobre”, cujo único projeto em 63 anos de república foi o de cortar fora a parte “sul” do país, os “miseráveis”, os “vagabundos” do sul, gritava enlouquecido que iria mandar os “ratos” africanos para a Alemanha – que a “sua” Itália não merece isso. Não é banal verificar mais uma vez a falta de memória histórica presente em todo fascista? Como assim a Itália não merece isso? Depois do que a Itália fez na Líbia durante as duas grandes guerras, quando a invadiu, a bombardeou, a sacaneou de todas as formas possíveis, a Líbia invadir a Itália é pouco. Eu torço para que isso aconteça. Que essa Itália fascistinha, que essa Itália narcisista seja arejada pela África, que aconteça com a Itália o que aconteceu com o mundo quando seus miseráveis vieram como imigrantes. Afinal de contas, um país que mantém Silvio Berlusconi no poder pode dizer o que de Kadafi? Nada. Que venham os africanos. É o que de melhor pode acontecer com a Itália.

domingo, 23 de janeiro de 2011

NÃO HÁ RELAÇÃO SEXUAL

Fonte: Ancelmo Gois in O Globo, 16 de janeiro de 2011.

Em ti mais do que tu – é de Lacan esta tese. Comprovação: Zézinho leva Zezé para a cama em busca da Chica. Resultado: desencontro, não-relação. É por isso que, no dia seguinte, ainda bem, eles repetem a busca. Essa repetição se chama ato sexual. Todo ato sexual quer a relação sexual, a completude, a perfeição que não existe. Natural? Impossível. Não há naturalidade no ato sexual, não há naturalidade na sexualidade humana. Ninguém nasce mulher, ninguém nasce homem. Que um homem queira uma Chica é tão estranho, tão difícil, tão complicado quanto um homem querer um João, uma mulher querer uma Gisele, um homem querer um sapatinho de cristal, uma mulher querer um pai e assim por diante. Essa é uma das razões pelas quais a psicanálise foi e é insuportável para uma sociedade que foi e continua sendo crente, carola e comungante de uma medicina que declara ser tudo fisiológico, tudo sistema límbico, tudo hormonal, tudo neurotransmissores, tudo genético. Só faltou combinar com a Zezé Motta. Porém, como ensina o doutor House, todos os pacientes mentem. Calem a boca dessa mulher!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

TEBAS


Detalhe do 7ème [septième, sétimo] arrondissement [bairro] de Paris no Mapa Muji Handkerchief. Aqui está localizada a Rue de Lille, onde, no nº. 5, Jacques Lacan praticou a psicanálise de 1941 a 1981.

sábado, 16 de outubro de 2010

A DOENÇA MENTAL DO HOMEM


Fotografia de Timothy A. Clary/AFP in O Globo, 16 de outubro de 2010.

“O Desprezível Eu”? Sensacional! Como já dizia aquele insuportável,

“...o eu está estruturado exatamente como um sintoma. No interior do sujeito, não é senão um sintoma privilegiado. É o sintoma humano por excelência, é a doença mental do homem.”

Jacques Lacan in O Seminário – Livro 1 – Os Escritos Técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1983, 2ª. ed., p.25.