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quarta-feira, 1 de junho de 2011

FUROR

“Leviathan”, a escultura de Anish Kapoor para a exposição Monumenta no Grand Palais des Champs Elysées em Paris até 23 de junho. Fotografia de Benoit Tessier/Reuters in The Guardian, 10/5/2011.

“Quando se ergue, as ondas temem
e as vagas do mar se afastam.”

Livro de Jó, 41:17 in A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulinas, 1987, p. 940.

terça-feira, 31 de maio de 2011

FUSÃO

Barbara Hepworth por Jorge Lewinski/The Lewinski archive at Chatsworth in “Barbara Hepworth: Queen of the Stone Age” de Jonathan Jones in The Guardian, 2/5/2011.

O que fazer do furo? Habitá-lo.

domingo, 29 de maio de 2011

FERREIRA

Escultura de Barbara Hepworth em frente ao museu The Hepworth Wakefield inaugurado em 21 de maio, em Yorkshire, Inglaterra. Fotografia de Sarah Lee in The Guardian, 19/5/2011.

Às margens do rio Calder,
em Yorkshire,
nasce uma rosa,
desenhada por David Chipperfield,
para abrigar, para cuidar,
de uma escultora que morreu queimada,
em seu estúdio, seu afazer,
Barbara Hepworth, o nome,
aquela que foi transformada
pelo ferro, pela pedra
em palavra.

sábado, 28 de maio de 2011

RETRATO DO FERREIRO QUANDO JOVEM

“Torse de jeune fille [I]” [Torso de uma jovem] em ônix por Constantin Brancusi, em 1922. Harvard Art Museums, Fogg Art Museum, Cambridge, the Louis Orswell Collection, 1998. Fotografia President and Fellows of Harvard College/Junius Beebe.

Fietta Jarque, do El País, foi até a Suíça encontrar o ferreiro-artista Richard Serra, na abertura da exposição genial que a Fundação Beyeler organizou das obras de Serra e do romeno, naturalizado francês, Constantin Brancusi. A exposição fica até 21 de agosto na Suíça e depois vai para o museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha. É daquelas entrevistas para se ler em voz alta nos jardins de infância, se pregar nos postes das cidades, chorar de alegria. Ela começa assim:

“Jarque – Qual é a relação do sr. ou da sua escultura com Brancusi?
Serra – Não creio que exista uma conexão paralela entre a obra de Brancusi e a minha. O que posso dizer de minha parte é que, quando era estudante, entre 1964 e 1965, tive uma bolsa de estudos de um ano em Paris. Eu já era pintor na época, mas não escultor. Fui ver a reconstrução do ateliê de Brancusi, que estava no Museu de Arte Moderna, e me senti tocado e inspirado por ele. Fui ver essa exposição vários dias e fiz desenhos de suas esculturas. Fiz esses desenhos porque para mim o desenho é a forma como o volume corta o fio das coisas. O interior se desenha e se desenha também o exterior. É nessa fina linha que o desenho ocorre. E enquanto observava o estúdio de Brancusi, me dei conta de que em seus cortes e modelos, ele desenhava com a escultura, da mesma maneira que Cézanne desenhava nas pinturas. Fiquei impressionado com essa ideia. Desde então não voltei a ver a escultura da mesma maneira. Isso foi como um despertador para mim.

Jarque – O sr. se refere à escultura abstrata de Brancusi...
Serra – Brancusi é como um manual de instruções. Ele é a austeridade e a simplicidade das formas. Mas se queres representação, ali também encontrarás. Se queres abstração, lá estará. Se queres volume, também. Ou a justaposição. E sempre está feita das formas mais simples e da imaginação, de tal maneira que eu nunca tinha visto antes. Algo ali me atraiu para sempre sem saber porque, e voltei dia após dia para fazer meus desenhos. Quando fui embora de Paris, já pensava em me dedicar à escultura. Se não fosse essa bolsa de estudos, provavelmente eu nunca teria me tornado escultor. Pois bem, isso foi há 40 anos. Se hoje me perguntam se Brancusi foi uma influência posterior, eu digo que não. Foi apenas o princípio. Foi ele quem engendrou em mim a possibilidade de fazer-me escultor. Porque a escultura consiste realmente em aceitar que se pode inventar formas. E acredito que Brancusi foi capaz de reduzir a forma a uma ideia muito simples.

Jarque – Suponho, além disso, que o estúdio de Brancusi conservado intacto parecia guardar muitos de seus segredos.
Serra – Sim, ele retinha uma aura. Você quase podia sentir a sua presença ali, embora ele já não estivesse. A atmosfera do ateliê era impressionante. Quanto a essa exposição de agora, que relaciona a obra de Brancusi com a minha, eu não diria que há nexos diretos. Mas uma das coisas que Brancusi demonstrou foi a possibilidade de retirar a escultura de seu pedestal. Eu penso na escultura Coluna Infinita, a de madeira. Brancusi cortou a peça medindo exatamente a altura do chão ao teto na galeria Brummer de Nova Iorque, em 1926. Ele mediu o espaço, no contexto. Foi algo excepcional porque depois disso ele seguiu fazendo obras sobre o pedestal. Mas essa ideia de alguém medindo o espaço no lugar da exposição, levando em conta o espaço do lugar, a paisagem de fora, me impressionou demais. Eu queria trabalhar a escultura fora do pedestal, porque quando consegue isso, consegues fazer com que o espectador veja a escultura ao nível de sua própria experiência. Se pensas em uma pintura dentro de seu marco de referência, o que está pintado permanece dentro desse enquadre. Mas em uma peça como esta [aponta o dedo para sua obra Olson], te moves, podes andar por ela, através dela, e isso muda a tua experiência em relação ao espaço. De tal modo que a peça não depende de sua imagem, mas sim do que o espectador experimenta dentro dela, ao redor dela ou desde diferentes pontos de vista.”

Fonte: entrevista de Richard Serra a Fietta Jarque in Babelia, El País, 28/5/2011.

“Olson” em aço por Richard Serra, em 1986. Exibição na Fundação Beyeler, Riehen/Basel, Suíça. Coleção do artista. Fotografia de Lorenz Kienzle.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

BALANGANDÃ

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 18/5/2011.

Na maravilhosa charge de Chico Caruso, eis que o ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, vem dar seu apoio moral ao chefe do FMI, Dominique Strauss-Kahn. É que no mesmo dia da prisão de Strauss-Kahn, o ator admitiu ter tido um filho com a empregada da casa. Ora, há uma diferença enorme entre o ato de Schwarzenegger o e o ato de Strauss-Kahn. Até onde se sabe, houve atração mútua e consentimento para Schwarzenegger e houve estupro no caso de Strauss-Kahn. Porém, uma questão toca a ambos. É aquela que o gigante Dorival Caymmi imortalizou: o que é que essas baianas têm? Uma camareira, a outra empregada. E as duas desequilibraram, desnortearam, enlouqueceram esses homens. Será que foram os torços de seda delas? Será que os brincos de ouro? Ou as sandálias enfeitadas? O que leva um homem a cair por cima de uma mulher? Aqui Caymmi novamente é brilhante. Ele diz: “quando você se requebrar, caia por cima de mim”. É tão lindo isso. Há um pedido em jogo, e não a violência. Há condição, a espera, esse “quando” magnífico. Para além de querer interpretar algo que só pode ser feito escutando um por um a esses homens, o pedido de Caymmi é que essa baiana caia por cima dele – não é ele que cai sobre ela. O conjunto dos homens não cai, pois não requebra, é duro, é inflexível. Daí esse “we”, esse “nós” que supostamente simbolizaria a força, o poder, porém Caymmi sorri e acrescenta...a força de fazer um pedido. A queda está do lado delas, essas que não fazem conjunto, pois não ficam paradas no mesmo lugar, e por isso requebram, como requebram, daí a força do sexo feminino. Daí o pedido dos fracos, dos masculinos, onde cair também quer dizer ficar caidinha por esse homem, significa parar por um momento a deriva ou, quiçá, para sempre, e agora recobrir esse homem, grudar em sua pele, o dois virar o um – e aí, só aí, pode-se responder o que é que a baiana tem. Ela tem aquilo que me falta, aquilo que não tenho, aquilo que busco, aquilo que não sou, aquilo que vai me completar. Ela tem o bom fim do amor.

terça-feira, 17 de maio de 2011

CAMAREIRA

“Temos que ser gratos a Louis Malle por ter revelado o jeito de andar de Jeanne Moreau em Ascensor para o cadafalso [Ascenseur pour l'Échafaud, 1957]. Sempre fui sensível ao andar das mulheres, bem como ao seu olhar. Em O diário de uma camareira [Le Journal d'une femme de chambre, 1964], durante a cena das botinas, tive verdadeiro prazer ao fazê-la caminhar e ao filmá-la. Seu pé, quando ela anda, treme ligeiramente no calcanhar do calçado. Atriz maravilhosa, eu me contentava em segui-la, apenas corrigindo-a. Ela me ensinou sobre o personagem coisas de que eu não suspeitava.”

Luis Buñuel in Meu Último Suspiro. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 335.

Diálogo entre o acusado e a juíza:

- Eu vi Jeanne Moreau na camareira.
- Inocente. Não culpado. Estás liberado.

domingo, 15 de maio de 2011

REDEMUNHO

Anúncio do filme “Midnight in Paris” de Woody Allen in The New York Times, 15/5/2011.

Sob o céu de Van Gogh, a resposta de um artista ao final de Casablanca. O redemunho nos tem.

domingo, 10 de abril de 2011

RESSACA

Fonte: The New York Times Book Review, 10/4/2011.

O genial italiano Emilliano Ponzi, de Milão, é o autor desse desenho maravilhoso que ilustra a capa do caderno de livros do The New York Times. A ilustração faz parte da excelente resenha de Robin Romm sobre o livro “Say her Name” [Diga o nome dela] de Francisco Goldman, editora Grove Press. O que fez Ponzi? Ponzi leu esse trecho do livro citado por Romm, sobre a viagem de Francisco com sua esposa Estrada, pouco antes dela morrer afogada em uma outra praia. Aqui eles estão numa viagem à Tulum, no México:

“Soon we were watching the iridescent pastels of the sunset spreading over the water and blazing in the sky above the strip of jungle between us and the ocean, the whole place throbbing with bird calls, as if every glowing tree and plant hid a boisterous bird or two, and we both felt stunned into separate peaceful meditations on the crazy sublimity of what we were witnessing, each of us filling with a sense of mystical wonder and loneliness that merged into one mystical wonder and loneliness together.” [Logo, nós estávamos olhando para o pôr do sol em arco-íris espalhado sobre a água e ainda brilhando sobre o céu acima da faixa de floresta entre nós e o mar, o lugar inteiro vibrando com o canto dos pássaros, como se cada árvore, cada planta os escondessem de nós, e, atingidos no coração de nossos pensamentos amortecidos pela grandiosa beleza ao nosso redor, cada um foi preenchido por um senso de deslumbramento místico e solitário que se fundiu na maravilha de viver isso juntos”].

E o livro é exatamente isso, a memória da maravilha que é a vida, antes dela ser tirada, antes dela ser extinguida, antes dela não mais ser. Cada letra aqui celebra essa passagem do um para o múltiplo, para esse “juntos” tão lindo, tão querido, tão difícil, tão improvável e, por isso mesmo, tão desejado. O que fez Ponzi diante dessa beleza sublime? Respondeu com uma epifania. Aí está um casal, na fronteira da vida, na franja, na borda, na véspera do não-casal – ela já misturada com as ondas, o vestido de noiva feito de ondas, as ondas da vida feitas ondas da morte – as que levam, as que buscam, as que quebram a união e devolvem a solidão – mas aí, eis a arte, eis a trapaça do humano, eis o que Bergman viu em O Sétimo Selo, quando pôs o sujeito a jogar xadrez com a morte – escrever significa ganhar mais um segundo, mais um minuto em que se possa celebrar a memória, recordar o que vivemos, celebrar o que resta – e não é pouco. A morte vencerá, mas não do jeito dela. Fazer arte significa adiar o final da partida, fazer de conta que ela nunca mais terminará. É por isso que toda arte, seja ela literatura, o cinema, seja pintura, seja escultura, seja o amor, será sempre um conto de fadas – era uma vez, éramos, seremos para sempre. Fazer de conta é fundamental. Daí a ressaca, esse “undertow” magnífico, o forte movimento barulhento que anuncia a chegada mas também a noite passada em claro no trabalho de fazer de conta.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

HORROR

Fonte: O Estado de São Paulo, 8/4/2011.

Seu nome é Steve Jobs. Ou Bill Gates. O que quer dizer isso? Quer dizer que após uma grande tragédia, vem outra chamada “sentido”, “explicação”, “causa”. Pior. Vem o “especialista”, o “aplicador de testes”, o “sabe-tudo”, o “doutor”. Por que o atirador de Realengo fez isso? Não sei. Ele morreu, não pode mais falar. E, cuidado, mesmo se vivo, nada indica que falaria se preso – nem sob a infame prática da tortura. Querer agora “interpretar” o assassino a partir de sua timidez, falta de namorada ou o uso da internet é uma piada perigosa. Por esse crivo, Steve Jobs e Bill Gates deveriam estar atrás das grades. Como prever isso? Não há previsão possível. Nem retirando todas as armas das ruas, nem aplicando testes fajutos e picaretas elaborados “em Harvard”, nem limitando a internet a uma hora por dia, com sites controlados 24 horas por um novo ministério a ser criado, nem realizando o sonho da indústria farmacêutica que é o de distribuir suas pilulazinhas mágicas através das tubulações de água de uma cidade. Nada. Um ato leva muito tempo para ser construído e tem muitas causas. Saber por que alguém em vez de inventar um I-Pad inventa um assassinato horroroso depende desse alguém querer falar disso. Não é o teste de sangue que vai revelar, não são as partes grandes ou pequenas do genoma. As células, assim como as rosas, não falam. Tampouco serve falarem no lugar do sujeito. Mas aí, já é pedir demais àqueles que fazem desse mau costume profissão.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

CONTO

Fonte: anúncio da Tiffany na contracapa da revista The New Yorker, 4/4/2011.

E foram para sempre.

domingo, 27 de março de 2011

DESCOMPASSO


Fonte: Charles M. Schulz in O Estado de São Paulo, 27/3/2011.

Só um minutinho.