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terça-feira, 26 de abril de 2011

LIMBO

“Detalhes de vidas no limbo norte-americano”. Fotografia de Brennan Linsley/Associated Press na reportagem de Charlie Savage, William Glaberson e Andrew W. Lehren in The New York Times, 25/4/2011.

Sobre o horror de Guantánamo, o campo de concentração inventado pelos Estados Unidos após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, duas notícias que fizeram Kafka se revirar no túmulo espantado. A primeira delas, traduzida na Folha de São Paulo de hoje, veio do repórter James Ball do inglês The Guardian. Ela diz que prisioneiros capturados com relógio Casio no pulso eram automaticamente suspeitos de pertencer à rede terrorista Al Qaeda, sendo o relógio um “sinal da Al Qaeda” e, portanto, tinham imediatamente prolongados o tempo de prisão. É esse “imediatamente” que é chocante. O prisioneiro não foi ouvido, não teve direito à nenhuma defesa, não há testemunhas, há o sinal no pulso, o relógio Casio, a prova única e definitiva! Eis aqui um exemplo terrível do que significa substituir uma escuta pelo olhar, pela imagem. Aliás, só para apimentar o debate, não estará a França no mesmo caminho ao proibir o uso da burca por mulheres islâmicas em suas ruas? Como diz Vladimir Safatle na mesma Folha de hoje, aguarda-se nas próximas horas a proibição do hábito das freiras católicas também. A segunda notícia veio dos repórteres Rod Nordland e Scott Shane no The New York Times de ontem. Eles descobriram que um dos mais perigosos terroristas do mundo, segundo a “inteligência”, preso e trancado incomunicável em Guantánamo durante mais de 5 anos, o sr. Abu Sufian Ibrahim Ahmed Hamuda bin Qumu, foi transferido à Líbia e hoje é um dos líderes “revolucionários” contra a ditadura de Muamar Kadafi. Incrível! De “perigoso terrorista” à “líder revolucionário” num piscar de olhos. Quem decidiu isso? Quem estabelece que 5 anos é o tempo de “conversão” deste homem? Quem define o relógio Casio como sinal de uma rede terrorista? Quando a maior democracia do mundo está nas mãos de um juiz invisível desses, de um juiz tirano e sem controle, de um juiz que não se pode ver nem duvidar, sequer recorrer, então ela já não é mais uma democracia. Como demonstrou tão bem o genial cineasta indiano-norte-americano M. Night Shyamalan, no indispensável “A Vila”, que é sua resposta ao seriado “Arquivo X”, a verdade não está lá fora. Está aqui dentro. O que é o terrorismo da Al Qaeda perto do nosso terrorismo?


Fonte: Rod Nordland e Scott Shane na reportagem "Libyan Makes Journey From Detainee to Rebel - and U.S. Ally of Sorts" in The New York Times, 25/4/2011.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

CABUL, CABUL

Fonte: Jason Kelly, Afghanistan: Land of War and Opportunity [Afeganistão, a terra da guerra e da oportunidade] in Bloomberg Businessweek, 6 de janeiro de 2011. A chamada da capa diz assim: “Sua empresa aqui? O Departamento de Defesa quer que as companhias americanas façam algo nobre [“to do something noble”]. Try Afeganistão [“tentem” o Afeganistão, porém esse “try” é tão rico de significados que vale a pena deixá-lo em inglês, mesmo porque foneticamente rima com “trai” em português – aí vira, “traiam” o Afeganistão! Haverá duplo sentido melhor?]. Uma viagem pela terra das oportunidades difíceis, perigosas”. Tentei descobrir quem foi o autor da capa sensacional, mas não consegui. A fotografia da destruição e o desenho sobreposto estão absolutamente geniais sobre essa “nobreza” em questão e desse estranho “querer” de um Departamento de Defesa que, sem querer, foi empregado por essas corporações para fazer a única coisa que sabe, a fumaça preta no fundo. Para ficar no jargão militar, who’s in charge here?

Os businessmen dos Estados Unidos nunca se caracterizaram pela dialética. Longe disso. É gente que só aprendeu nas business schools a passar o dia inteiro acumulando mais e perdendo nada ou, como bem definiu o Gérson naquele comercial esclarecedor, o importante é levar vantagem em tudo, certo? Certo. Porém, nunca antes neste país se chegou ao top of the heap como agora. Primeiro você destrói. Depois, você constrói. Antigamente, nas priscas eras, havia makeup, uns olhinhos esfumados por aqui, livrar o mundo do comunismo, um delineador por ali, a liberdade contra a tirania, uma sombra lá, a derrubada de um ditador assassino. Não mais. A ordem agora é wake up in a city that doesn’t sleep – deve ser por causa do barulho dos bombardeiros, mas, como disse aquele general formado em West Point para uma criança iraquiana que não conseguia dormir, “filho, esse é o barulho da liberdade”. Liberdade? Deixa prá lá. Isso foi no tempo dos dinossauros. Os mais aptos do novo Departamento de Estado convidam os vagabond shoes a serem os number one, os top of the list, os king of the hill…no Afeganistão, Afeganistão. Porque quem make it there, com certeza vai make it anywhere. Start spreading the news.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ODISSÉIA

Fotografia de Damon Winter na reportagem de James Dao in primeira página do The New York Times, 11 de agosto de 2010.

Faltam as palavras do menino afegão. No meio do caminho, duas armas, dois fuzis, dois monstros sem cabeças – o menino sim, com cabeça, com as mãos no bolso e com um olhar, sim, um olhar. Entre Cila e Caribdes, conseguirá passar? Imóvel por enquanto, prisioneiro em sua própria terra por enquanto, terrorista por enquanto, resto não contável por enquanto, alvo por enquanto, há um olhar nesse menino. Há pernas nesse menino. Há mãos nesse menino. Há vida nesse menino. Esse menino fala por todos os poros, esse menino grita, esse menino é puro movimento, a finta, o desvio, o drible. O nome desse menino é Ulisses.