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domingo, 29 de agosto de 2010

ENCONTRO MARCADO

Fonte: Zero Hora, 29 de agosto de 2010.

A história de Raúl Bustus me lembrou outra, de Somerset Maugham: “Certa vez um mercador de Bagdá mandou seu servo comprar provisões no mercado. Pouco depois, o servo voltou, branco e trêmulo, e disse: ‘Mestre, agora mesmo, quando estava no mercado, fui empurrado por uma mulher no meio da multidão e, ao me virar, vi que fora a Morte quem me empurrara. Ela me olhou e fez um gesto ameaçador. Agora me empreste o seu cavalo, vou cavalgar para bem longe desta cidade, a fim de evitar meu destino. Irei a Samarra: lá a Morte não me encontrará’. O mercador emprestou-lhe seu cavalo. O servo montou, enfiou as esporas nos flancos do animal e, tão rápido quanto este conseguiu galopar, se foi. Então o mercador foi até o mercado, viu-me em pé no meio da multidão, veio até mim e disse: ‘Por que você fez um gesto ameaçador para o meu servo, quando o viu pela manhã?’. ‘Não era um gesto ameaçador’, respondi, ‘era só uma reação de surpresa. Fiquei atônita de vê-lo em Bagdá, já que tenho um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra’ ”.

sábado, 28 de agosto de 2010

OS PSICÓLOGOS PERFURADORES EM AÇÃO

Fonte: Gustavo Hennemann in Folha de São Paulo, 24 de agosto de 2010.

A perfuratriz se chama Strada. Haverá nome mais lindo para uma máquina? Lá vai essa água mole, 15 metros por dia, fazer furo, perfurar, abrir buraco, fender a pedra, dividi-la, introduzir uma passagem, um caminho, fazer estrada onde não há. Pois esse é exatamente o trabalho dos psicólogos ali presentes, abrir a boca desses homens, fazê-los falar, conversar entre si, jogar a força do grupo contra o desamparo, o isolamento, a solidão abissal que ali se instalou. São psicólogos perfuradores, abridores de estradas, psicanalistas, behavioristas, terapeutas disso, terapeutas daquilo, que, ao avesso da bobagem de esquecer as diferenças, pelo contrário, é exatamente com elas que farão o melhor, gente brava, gente honrada, gente digna, que ali escavam também, que ali tentam dar a mão, dar uma escuta, dar uma rotina, oferecer uma vida ainda que inviável, ainda que desesperadora, ainda que improvável – a vida que há. A todos esses psicólogos, a minha homenagem.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

UM MAR DE ROCHA

O rosto de Florencia Ávalos, um dos 33 mineiros soterrados, visto na tela de uma televisão no acampamento dos familiares na mina San José, no Chile. Fotografia AP in El País, 27 de agosto de 2010.

“Señor presidente, nosotros necesitamos que no nos abandonen. Como mineros, los 33 que estamos aquí, bajo un mar de roca, estamos esperando que todo Chile haga fuerza para que nos puedan sacar de este infierno” [a resposta de Luis Urzúa, o chefe de turno dos 33 mineiros soterrados no Chile à pergunta do presidente do Chile, Sebastián Piñera, sobre o que eles necessitavam – fonte: F. Peregil in El País, 26 de agosto de 2010].

Um mar de rocha. Nem Dante Alighieri conseguiu imaginar isso no Inferno. Lá está a selva escura, os que ardem de desejo sem a esperança de saciá-lo, o negro vendaval reservado aos pecadores carnais, a chuva gélida, pesada, imutável que cai sobre os gulosos, as águas ferventes mais adiante, as turbas demoníacas em Dite, o rio de sangue chamado Flegetonte para os assassinos e tiranos, as almas nuas sobre um areal fervendo sob a chuva de labaredas, os abismos, o Malebolge, dez covas malditas, fossos, cloacas, o piche quente, poços escuros, o gelo atroz no centro da Terra. Mas não há mar de rocha em Dante. Isso que acontece no Chile está além de Dante. Um mar de rocha, um oceano de pedra. Dói escutar, dói imaginar isso. Mar de rocha. Insuportável. Um mar de rocha.