Mostrando postagens com marcador Édipo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Édipo. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de junho de 2011

VARIANTE

Bobby Fischer em seu quarto de hotel em Reykjavik, na Islândia, em 1972, durante a disputa e conquista do título mundial contra Boris Spassky da Rússia, com o tabuleiro ao lado da cama caso tivesse alguma ideia durante a noite – da mesmo forma como ele tinha em seu apartamento no Brooklyn, em Nova Iorque, onde aprendeu a jogar xadrez aos 7 anos com sua irmã mais velha que o entretinha com diversos jogos enquanto a mãe ia trabalhar. Fotografia de Harry Benson, enviado pela revista Life para fazer uma reportagem fotográfica sobre ele. Fonte: Dylan Loeb McClain in Capturing Bobby Fischer, The New York Times, 19/6/2011.

E se Dmitri Dmitritch Gurov fosse Bobby Fischer?
Ou vice-versa.

domingo, 17 de abril de 2011

AMARCORD

Pelas ruas do bairro de North End, em Boston, no inverno. Fotografia de William Albert Allard na reportagem “Grande Famiglia di Boston” de Erla Zwingle in National Geographic Brasil, outubro de 2000.

“No salão Johnny&Gino, situado na rua Hanover [no bairro North End, em Boston], Johnny “Sapato” Cammarata dá os últimos retoques no corte do cabelo de Rico Federico. “Eu nasci aqui”, comenta Johnny com o carregado sotaque bostoniano, “mas em casa tinha de falar siciliano se quisesse comer” (…) Por que um barbeiro tem o apelido de Sapato? Porque seu pai era sapateiro, claro. “Toda a nossa família tinha esse apelido: Joe Sapato, Frankie Sapato”, explica. Enquanto fala, maneja a tesoura. “Meu irmão Joe estava na classe para alunos especiais. Meu pai sempre lhe dizia: 'Joe, eu me orgulho de você, está na classe especial'. Eu me arrebentava de rir. E Joe me ameaçava: 'se contar a ele, mato você'. Mal sabia meu pai que ele estava na classe dos alunos problemáticos...” A disciplina paterna? Rápida e precisa. “Meu pai me batia na cabeça com o martelo”, revela Johnny. “Ainda bem que era sapateiro e não açougueiro! Eu tinha de limpar a oficina. “Tudo bem, já vou”. E não ia. Pá! Martelada na cabeça. “Agora vá procurar seu tio”. Meu tio era barbeiro. Ele cortava um limão e o espremia sobre minha cabeça. Não sei como sobrevivi...Eu adorava meu pai.”

Fonte: Erla Zwingli in Grande Famiglia di Boston, na National Geographic Brasil, outubro de 2000.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O SÉTIMO SAMURAI

Toshiro Mifune como Kikuchiyo em “Os Sete Samurais” de Akira Kurosawa.

Akira Kurosawa fez em 1954 “Os Sete Samurais”. Não é um filme. É uma obra-prima, uma obra de arte atordoante, maravilhosa, indispensável. Lá está o gigante Toshiro Mifune como Kikuchiyo, o coxo, o bêbado, o perdido, o errado, o desobediente, Édipo-colono que quer ser samurai. Cada cena de Kurosawa é uma pintura, é uma escultura feita de palavras, gestos e sons – a natureza está lá, dura, difícil, limitada, porém, fértil, possibilitadora, esperançosa – é o próprio final, a mesma terra que é cemitério é também plantação e colheita. Há duas cenas em sequência de uma grandeza, de uma humanidade, de uma poesia que deveriam estar expostas permanentemente nas ruas de todas as cidades do mundo. Revi ontem pela vigésima vez o filme todo, mas é nestas cenas que as lágrimas renascem, fazem redemoinho, despencam. Na primeira delas, antes do ataque dos bandidos, Kikuchiyo encontra na aldeia as armaduras de samurais mortos pelos próprios camponeses em tempos antigos. Inicia então um discurso memorável em que ele pergunta se os samurais ali presentes, os seis representados como círculos na bandeira de combate, enquanto ele, Kikuchiyo, está desenhado como um triângulo, aquele que representa a diferença absoluta, o sem nome e sem idade – ele não sabe como se chama, então ele apresenta aos demais uma “certidão” com o nome Kikuchiyo, só que pela data de nascimento ali inscrita, ele teria 13 anos, daí o fato dele agir muitas vezes como uma criança, um palhaço, o Mazaropi dos samurais, sendo escolhido pelas crianças da aldeia como o ídolo absoluto; elas chegam a fazer platéia para rir de suas imitações ou então tentativas de domar um cavalo, e, na hora em que ele vê o melhor dos samurais fazer uma ação arriscada e voltar do campo inimigo com um rifle capturado, ele também se arrisca, usa da astúcia máxima de se fazer passar de bandido e também consegue um rifle para, perplexo, ver todo seu esforço ser ridicularizado e condenado pelo líder dos samurais, que o coloca em seu lugar, o de não samurai, um desigual, uma ameaça para o grupo, e nesta hora, bem antes destas peripécias, este homem em pedaços pergunta a esse grupo de mestres se eles pensam que os camponeses são santos. E ele responde que não. Eles são bestas feras, bichos feras espertas, feras astutas que escondem suas riquezas, escondem suas mulheres, escondem quem de fato são. Mas quem transformou eles em feras, pergunta Kikuchiyo. E ele responde: vocês fizeram. Vocês, samurais, fizeram isso. É de vocês a responsabilidade. Vocês queimam suas casas, vocês destroem suas plantações, vocês roubam sua comida, vocês transformam eles em escravos, tomas suas mulheres e matam quem ousar resistir. Trata-se de uma impressionante inversão dialética – subitamente os bons viram maus, os mocinhos são também bandidos, aqueles que eles combatem podem ter sido, são ou serão eles mesmos um dia. Porém, isso se repete de um outro jeito na cena logo a seguir, quando os bandidos atacam a aldeia e queimam a casa da roda d'água, onde estava o velho da aldeia, que se recusara a ir para a área segura defendida pelos samurais, então, lá vai Kikuchiyo tentar ajudar, e, inesperadamente, ele encontra uma mulher ferida com um bebê no colo. Ela entrega o bebê vivo a Kikuchiyo e morre, enquanto ele olha apavorado para o bebê, transtornado, começa a chorar e passa o bebê o mais rápido possível para o líder dos samurais dizendo “eu fui esse bebê”. Subitamente se revela sua origem, suas raízes, seu chão, suas escolhas – aliás, pode-se fazer uma brincadeira séria com o sobrenome do ator. Kikuchiyo é aquele que faz a travessia do “Me Funai” grego presente em “Édipo em Colono”, “antes não ser”, para um ser, o ator que soube esvaziar seu ser em cada personagem incorporado, o pouco-de-ser “Mi Fune”, Mifune. É de chorar e agradecer o resto da vida a esse homem chamado Akira Kurosawa e a este ator da vida em sua capenguice e esplendor máximos, Toshiro Mifune. O Japão nos deu para sempre seu mais belo presente. Muito obrigado.

sábado, 12 de março de 2011

NÃO

Pai e filho, que perderam a casa, diante dos destroços em Sendai, Japão. Fotografia Kyodo News via Associated Press in The New York Times, 12/3/2011.

Não se perderam.

domingo, 23 de janeiro de 2011

NÃO HÁ RELAÇÃO SEXUAL

Fonte: Ancelmo Gois in O Globo, 16 de janeiro de 2011.

Em ti mais do que tu – é de Lacan esta tese. Comprovação: Zézinho leva Zezé para a cama em busca da Chica. Resultado: desencontro, não-relação. É por isso que, no dia seguinte, ainda bem, eles repetem a busca. Essa repetição se chama ato sexual. Todo ato sexual quer a relação sexual, a completude, a perfeição que não existe. Natural? Impossível. Não há naturalidade no ato sexual, não há naturalidade na sexualidade humana. Ninguém nasce mulher, ninguém nasce homem. Que um homem queira uma Chica é tão estranho, tão difícil, tão complicado quanto um homem querer um João, uma mulher querer uma Gisele, um homem querer um sapatinho de cristal, uma mulher querer um pai e assim por diante. Essa é uma das razões pelas quais a psicanálise foi e é insuportável para uma sociedade que foi e continua sendo crente, carola e comungante de uma medicina que declara ser tudo fisiológico, tudo sistema límbico, tudo hormonal, tudo neurotransmissores, tudo genético. Só faltou combinar com a Zezé Motta. Porém, como ensina o doutor House, todos os pacientes mentem. Calem a boca dessa mulher!

domingo, 16 de janeiro de 2011

RODA

O cachorro Leão cuida da cova de sua dona, Cristina Maria Cesário Santana, morta nos deslizamentos em Teresópolis, Rio de Janeiro. Fotografia AFP em 15 de janeiro de 2010.

Dia da Dama.

sábado, 15 de janeiro de 2011

MOIRAS



Cloto fiou, Láquesis jogou o fio. Átropos escolheu o cachorrinho.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

OIDIPOUS

Fotografia de Domingos Peixoto em algum lugar de Teresópolis, Petrópolis ou Nova Friburgo in O Globo, 14 de janeiro de 2011.

Édipo, o homem de pé inchado, pé cambaio, o homem de pé capenga, o manco, pé imperfeito, pé furado, o coxo, pé rengo, o zambo. O homem de pé.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

TÂNATOS

Fotografia de Domingos Peixoto em Itaipava, distrito de Petrópolis in O Globo, 13/1/2011.

“CORO:
Incontáveis. A pólis morre.
Portadores-de-Tânatos, tristíssimos,
os mortos proliferam pelas ruas.
Ao pé do altar acorrem mães senis,
esposas, choram súplices
a dura agrura.
Fulgura o hino e o coro de lamentos.
Envia, Palas, olhi-paz, dourada
filha de Zeus,
o júbilo da ajuda.”

Édipo Rei de Sófocles na tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2001, pp. 46-47.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

QUEM TEM MEDO DA PULSÃO?

Fonte: primeira página do Globo, 10/1/2011.

Há um instante em Édipo Rei de Sófocles em que, ao saber de Tirésias que ele, Édipo, é o matador buscado, o assassino do rei, logo, o causador da peste que assola a cidade, a causa do mal, Édipo faz a seguinte pergunta a Tirésias:

“ÉDIPO:
Creon armou o ardil ou é obra tua?” (Édipo Rei de Sófocles na tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 55)

Essa pergunta sempre retorna na política. Por exemplo, agora nos Estados Unidos. O que o Tea Party tem a ver com o atentado contra a deputada do Partido Democrata? A resposta é: nada. Querer que Sarah Palin, o Creonte da vez, se cale ou modere seu discurso é acreditar no pior remédio inventado nos Estados Unidos contra a política e a vida cotidiana: a praga do politicamente correto. Juliana Vaz e Marco Rodrigo Almeida trouxeram na Folha de São Paulo de sábado a notícia de que a obra “As Aventuras de Hucleberry Finn” ganhou uma “nova versão” corrigida por um professor universitário – pasme! – em que ele substituiu a palavra “nigger”[negão] da obra original por “slave” [escravo]. Imaginem o que esse professor vai fazer com Shakespeare! Ou com a Bíblia! Pois bem, deve-se censurar esse professor? De jeito nenhum. Que publique, que vá à praça pública defender seu trabalho, que funde uma universidade, que frequente o Tea Party. Porém, o mesmo vale para cada um que defender o contrário dele, que quiser fundar o Caipirinha Party, a Feijoada Party ou publicar o que lhe der na telha. Isso já existe nos Estados Unidos e é uma das coisas mais lindas de lá – infelizmente ausente no Brasil, ver neste quesito o processo da Folha de São Paulo contra o blog Falha de São Paulo, terrível, ou então a retirada e processo legal contra quem publica livros ou panfletos considerados racistas ou nazistas no Brasil. Ter uma fantasia racista ou nazista não significa ser um criminoso. Aliás, como prevenir esse tipo de crime acontecido nos Estados Unidos? A resposta é: o Estado nunca vai conseguir prever ou impedir de acontecer um surto psicótico, um surto neurótico ou um surto perverso – diferente de combater um grupo armado terrorista. Surto significa descontrole – causado por qualquer coisa que seja significante para o surtado – pode ser a letra de uma música tocada por um vizinho, pode ser a cor de uma camisa, pode ser o nome de um supermercado, enfim, hoje foi a deputada democrata, amanhã pode ser um senador republicano, depois de amanhã um colega da escola, e assim por diante. Querer impedir isso de acontecer é querer abolir a pulsão da esfera humana. O que é a pulsão? É a deriva, é o incontrolável, é o feio, é o errado, é o bizarro, é o trash e também o sublime, o bonito, o diverso, o inesquecível humano, demasiado humano, o avesso do instinto. O comunismo tentou barrar a pulsão por decreto. Deu certo? Então que o leitor imagine o que é viver sob o regime de Vladimir Putin ou outro escroque qualquer, Chávez, Fidel ou o antigo camarada Mao – China agora “modelo” de educação para o mundo – pasme de novo! – porque suas crianças tiram as melhores notas nos testes de matemática e de ciência! Ora, como é que um prisioneiro obrigado a estudar 16 horas por dia pode ir mal numa porcaria dessas?

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O QUE É O QUE É?

Andressa Ribeiro por Marlos Bakker in Playboy de janeiro de 2011, na primeira página especial do Meia Hora, Rio de Janeiro, 5/1/2011. Sensacional! A Penélope do Pantanal com o sucessor do Bandido!! Com a palavra, João Gomes da Silveira: “Pegar o bicho – acontecer o pior [ai, ai, ai ou toc, toc, toc]; Pegar o boi – conseguir algo com facilidade [melhorou, mas ainda assim há uma indeterminação, pegar o boi por onde?]; levar vantagem; fazer um bom negócio; dar-se bem; Pegar o boi pelos chifres [excelente: saiu da indeterminação pelos chifres! Chifres? Xiiiii...]– enfrentar situação difícil com disposição, vontade [magnífico significado]; encarar com energia a dificuldade; arrostar o perigo; enfrentar situação difícil, caótica, desesperadora, etc. com decisão e sentimento de responsabilidade [bonito isso, mas e quando o sentimento de responsabilidade barrar a decisão?]” (fonte: João Gomes da Silveira in Dicionário de Expressões Populares da Língua Portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 663).

É um pássaro? É um avião? Não. É a Ex-Finge!!!!!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

CEGO

John Ford, o Homero das Pradarias. Com a palavra, Olivier René-Veillon sobre o magnífico “The Searchers”, 1956 [“Rastros de Ódio”, porém em inglês é mais bonito: “Aqueles que procuram, à deriva, por aí...” – belíssima tradução!!!!]: “Essa formidável busca através de desertos e de tempestades, em que a areia e a neve se levantam incessantemente no horizonte para repelir sempre para mais longe o objeto perdido, é um desses grandes relatos épicos em que, desde a “Odisséia”, se escreve o insensato diálogo do homem com o universo” (fonte: Olivier René-Veillon citado in Coleção Folha de São Paulo, Clássicos do Cinema, v. 11, Rastros de Ódio. São Paulo: Moderna, 2009, p. 55). Ford ficou cego de um dos olhos em 1935, passando a usar o tapa-olho. Costumava divertir-se colocando o tapa-olho na vista boa ou usando o binóculo apenas no olho cego – “se eu decidir me tornar um bandido, precisarei apenas de meia máscara”, repetia (fonte: O Estado de São Paulo, 1/12/2003).

“CORO:
Não surpreende que, em meio a tanto horror,
chores em dobro, em dobro o fardo pese.

ÉDIPO:
Amigo,
ainda manténs por mim o teu apreço;
de um cego ainda te ocupas.
Tristeza!
Percebo tua presença. Da penumbra,
tua voz eu reconheço claramente.

CORO:
Como pôdes ferir assim teus olhos?
Tua ação assombra! Um deus te ensandeceu!

ÉDIPO:
Apolo o fez, amigos, Apolo
me assina a sina má: pena apenas.
Ninguém golpeou-me,
além das minhas mãos.
Ver – por quê? –,
se só avisto amarga vista?”

Édipo Rei de Sófocles na tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 103.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

AVIRGEM


Anúncio da Prada in La Repubblica, 5 de janeiro de 2011.

“CORO:
Tu abateste a Esfinge,
- a virgem de unhas curvas! -,
com seu canto-vaticínio.”

Édipo Rei de Sófocles na tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 98.