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sexta-feira, 10 de junho de 2011

BUNGA BUNGA

“Silvio Berlusconi – O homem que fodeu um país inteiro”
Fonte: capa da edição européia da The Economist, 9/6/2011.


O verbo perfeito para definir a Itália hoje. Um país transformado em garota de programa. Eis aí a fantasia do fascistinha de pijama realizada. O sorriso comprova: a Itália está fodida.

terça-feira, 24 de maio de 2011

PRENDAM O FACEBOOK


Fonte: Thomas L. Friedman, The New York Times in O Estado de São Paulo, 23/5/2011.

O genial Ben Schott decidiu construir um gráfico no The New York Times de domingo que é um primor de informação reduzida à sua essência. Ele compara o período de tempo que durou a presidência em diversos países do mundo de 1977 até 2011. Lá está o Brasil com seus 9 presidentes neste período, enquanto a Síria, por exemplo, tem o mesmo número que Cuba, China e a Coréia do Norte: 2. A Rússia e ex-União Soviética aparece com 5. Israel, para desespero de seus vizinhos, aparece com 10. A campeã, incrível, é a Líbia, em que o fascista de camelo do Kadafi aparece como único presidente em todo esse período de tempo. Não deixa de ser revelador que este reles ditador seja o Ideal do Eu de certa esquerda – é que ele conseguiu realizar a fantasia da imortalidade no poder. Pobre Fidel. Era para ser dele o troféu. Tadinho do velhinho. Mexeram no queijo dele.

Fonte: Ben Schott in The New York Times, 22/5/2011.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

INIMIGO DO POVO

“É o símbolo das revoluções” - China proíbe o jasmim – Proibida a venda e censura na internet: a flor virou uma fora da lei”
“Com medo da revolta, China cancela o jasmim – A repressão chinesa identificou seu último inimigo: o jasmim. Nos últimos dias, além da prisão de dissidentes, se acrescentou uma nova ordem da polícia: extirpar a cultivação da flor-símbolo da nação e proibir o comércio dos brotos que na China evocam harmonia e prosperidade”
Fonte: Giampaolo Visetti in La Repubblica, 12/5/2011.


Depois que o jasmim se tornou o símbolo da revolução na Tunísia, o governo chinês decidiu agir. A partir de agora, o nome “jasmim” está proibido. Foi extirpado da internet ao mesmo tempo que os bilhões de funcionários do Serviço Secreto, desde o dia primeiro de março, percorrem os mercados de flores do país inteiro para advertir os vendedores que o jasmim deve sair de circulação imediatamente. Queimem, enterrem, explodam os jasmins. É que, como diz brilhantemente Giampaolo Visetti, desta vez os comunistas chineses se depararam com um problema terrível. Eles não puderam aplicar em cima do jasmim aquilo que eles estão acostumados a fazer com as pessoas. Não puderam prendê-los nem torturá-los nem começar um processo de reeducação – o sonho do comunista chinês: ver um jasmim bater no peito e admitir sua culpa, andar de joelhos pelas principais ruas e avenidas da nação com uma placa nas costas, “sou um inimigo do povo”. Não puderam fazer com o jasmim o que estão fazendo com o prêmio Nobel da paz, Liu Xiaobo e com o artista Ai Weiwei: deixá-los atrás das grades até que confessem ser agentes do imperialismo ianque. Pobre China. O que será que eles vão fazer quando Gelsomina entrar em cena no magnífico A Estrada da Vida de Fellini? Alternativa a, vão mudar o nome dela para Chun? Chun? Espere, isso quer dizer primavera, primavera lembra flor e, desgraça, lá vem o jasmim de novo. Não serve. Alternativa b, vão colocar uma bola preta sobre a imagem dela e apagar sua voz – não existe mais essa personagem? Alternativa c, vão recolher todos os dicionários de italiano-chinês, para evitar a descoberta de que Gelsomina deriva de jasmim? Alternativa d, proibir todos os filmes de Fellini? Que patético fim para o comunismo. Jogo agora um buquê de jasmins sobre esse cadáver insepulto. Já vai tarde.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

HÁ DIFERENÇA SEXUAL

Fotografia de Pete Souza, fotógrafo oficial da Casa Branca, na “Situation Room” [Sala de Controle] da Casa Branca no dia em que o terrorista Osama Bin Laden foi morto.

Enquanto a fanfarronice masculina do planejamento, da operação, das armas, da elite da elite dos SEALS, a força mais especial treinada sob o lema “o único dia fácil foi ontem” se impõe como vencedora, a intrigante presença de Hillary Clinton na fotografia do dia D contra o terrorismo, na sala de controle da Casa Branca, em Washington, acompanhando em tempo real a morte de Bin Laden, com a mão na boca – depois ela revelou que cobriu a boca por causa de uma tosse devido à uma de suas alergias de primavera – revela uma Madonna que não reconhece seu filho mas, ainda assim, o vê de modo diferente dos demais naquela sala predominantemente masculina. A tosse de Hillary Clinton merece destaque. Ela fala da diferença sexual, ela diz mais do que parece. Um outro dado muito interessante nesta fotografia que o genial José Miguel Wisnik em sua coluna do Globo de sábado comparou à Velásquez e sua obra “As Meninas”, é que aquilo que não nos é mostrado, não nos é dado a ver, trata-se de uma voz. Da voz do diretor da CIA, que do outro lado do rio Potomac, em Langley, na Virgínia, sede central da CIA, relatava o ataque à casa de Bin Landen. Ora, que todos nesta sala estejam como que subordinados à voz deste Supereu maluco e desgovernado que é a CIA, causa perplexidade. É como se o poder civil de um presidente estivesse de lado, aliás como a fotografia mostra muito bem. Na cadeira do presidente não está o presidente, mas sim o general da Força Aérea e comandante das Forças Especiais, Marshall B. “Brad” Webb. Aliás, cabe aqui uma brincadeira séria: para combater a rede al-Qaeda, nada melhor que um Webb [Rede]!!
Ora, a tosse de Hillary Clinton aponta para esta desarmonia evidente, mas não falada. A tosse fala, a tosse interrompe o gozo masculino, a tosse pede passagem, a tosse questiona, a tosse faz mancha neste quadro. A propósito, só há mais uma mulher na foto, Audrey Tomason, diretora da luta contra o terroristmo, em pé. Mas é Hillary Clinton quem tosse. Ela é a encarnação da feminilidade nesta tosse. Ao contrário do que pode parecer, sua tosse não é fingimento. Ela revela outra fragilidade em questão. A fragilidade de um poder civil nas mãos do poder militar.

“- Hillary Clinton disse que viveu os 38 minutos mais intensos da sua vida.
- B
ill Clinton respondeu: “Então comigo foi fingimento?”
Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, Buenos Aires, 9/5/2011.

domingo, 8 de maio de 2011

EXCLUSIVO

Fonte: primeira página do Globo, 8/5/2011.

Velhinho? De gorro? Com barba branca? Mataram o Papai Noel!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

ANESTESIA MORAL

A tumba de Gerônimo na base militar Fort Still em Oklahoma, em 2005. Fonte: Wikipedia.

Em um artigo excelente no El País de hoje, José Ignacio Torreblanca diz o seguinte:

“Nada resume melhor o desastre de comunicação deste último ato do drama que começou em setembro de 2011 com o atentado contra as Torres Gêmeas, do que dar a Bin Laden o nome de código “Gerônimo”, o mítico chefe apache que passou à história americana por – leia-se bem agora – seu feroz espírito de resistência diante de um inimigo superior. Seus biógrafos dizem que durante os 23 anos de confinamento na reserva de San Carlos, ele foi submetido a numerosas humilhações, entre elas a de ser exibido como um troféu na cerimônia inaugural do governo do presidente Theodore Roosevelt e, pior ainda, a de ser obrigado a abraçar publicamente a fé cristã. Assim, o que se conclui da leitura da biografia de Gerônimo é que a superioridade tecnológica de um povo não necessariamente implica em sua superioridade moral.”

Fonte: José Ignacio Torreblanca in “Anestesia Moral”, El País, 6/5/2011.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

GERÔNIMO

Então a tropa de elite dos Estados Unidos deu o nome de código “Gerônimo” para se referir a Bin Laden. Ora, Gerônimo não merece esta associação. Gerônimo nunca foi terrorista. Gerônimo foi líder dos apaches, foi o homem que disse não aos espelhinhos que o governo dos Estados Unidos da América ofereceu como compensação pela apropriação à força de todas as suas terras e o genocídio programado de todo o seu povo. Não deixa de ser interessantíssimo se perguntar por que escolher este nome de código e não outro. Não haveria aqui o reconhecimento, mesmo que inconsciente, de que ao lidar com Bin Laden se está lidando com alguém que não encarna só a figura do bandido, do assassino, do mal, mas também alguém que se rebela, que se revolta, que se indigna contra a invasão de suas terras, a morte de seu povo? Aliás, a decisão dos Estados Unidos de, à la Argentina da pior ditadura militar, jogar o corpo de Bin Laden no mar levanta muitas questões. A mais antiga delas vem de Sófocles, que em Antígona faz Tirésias dizer ao governante Creonte o seguinte: “poupa esse cadáver. Pode ser façanha assassinar um morto?” (fonte: Antígona de Sófocles, na tradução de Guilherme de Almeida in Três Tragédias Gregas, de Guilherme de Almeida e Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 78). Os Estados Unidos decidiram não poupar o cadáver, parece que com o medo de que a cova em que ele fosse enterrado se transformasse em uma espécie de santuário. O problema dessa decisão é que ela igualou o ato do terrorista com o ato de um Estado não terrorista. É próprio da definição de terrorismo o sequestro de um corpo sem a devolução dele para a família. Qualquer Estado em que haja desaparecidos em sua história, como o Brasil, é um Estado que já foi governado por terroristas. Voltando a Gerônimo, ele morreu como prisioneiro de guerra dentro de um forte apache, dentro de instalações militares do governo dos Estados Unidos. Gerônimo não foi assassinado depois de morto.

terça-feira, 3 de maio de 2011

OBAMA MORREU

Fonte: rede de TV Fox News, 2/5/2011.

Foi sem querer...querendo. A fascistinha rede de TV Fox News se atrapalhou ao dar a notícia sobre a morte do terrorista Osama Bin Laden. Em um ato falho clamoroso, enquanto o apresentador lia as informações sobre o caso, uma legenda dizia que “Obama Bin Laden morreu”. Sensacional!! Isso é o que significa matar dois coelhos com uma cajadada. Há muito que o presidente Obama é tratado como terrorista. Há dois crimes que metade dos Estados Unidos não perdoa em seu presidente: primeiro, o de ser negro, segundo, o de trepar. A mudança da ordem dos fatores não altera o produto. São duas coisas imperdoáveis, inaceitáveis, insuportáveis. Cada vez que a linda, a maravilhosa, a querida, a tesão da Michelle Obama aparece junto de seu marido, as metralhadoras, carabinas e canhões dessa América profunda, América pateta, América racista, América puritana, América feia disparam, atiram, tentam recalcar de volta o que veio à tona. Ontem foi a cereja no topo do bolo. “Obama Bin Laden morreu”. Epifânico ato falho. Mas fiquem tranquilos. Nas profundezas da América racional, da América inteligente, em Harvard, a Gisele Bündchen das universidades, lá vem mais uma pesquisa médica a ser divulgada em horário nobre, declarando por a mais b e 2 mais 2 que o inconsciente não existe, ato falho é bobagem e que Freud estava errado, além de estar morto, é claro. Certa está a Fox News, perdão, a Medicina News. Pausa para os comerciais de nossos patrocinadores, as pilulazinhas para os deficitários de atenção aqui, para os deprimidos ali, para os em pânico acolá, para os que não sabem o que têm – não se preocupem, nós sabemos!! -, para os perdedores em geral. Djá, djá em sua casa. Com as facas Ginsu de brinde!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

LIMBO

“Detalhes de vidas no limbo norte-americano”. Fotografia de Brennan Linsley/Associated Press na reportagem de Charlie Savage, William Glaberson e Andrew W. Lehren in The New York Times, 25/4/2011.

Sobre o horror de Guantánamo, o campo de concentração inventado pelos Estados Unidos após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, duas notícias que fizeram Kafka se revirar no túmulo espantado. A primeira delas, traduzida na Folha de São Paulo de hoje, veio do repórter James Ball do inglês The Guardian. Ela diz que prisioneiros capturados com relógio Casio no pulso eram automaticamente suspeitos de pertencer à rede terrorista Al Qaeda, sendo o relógio um “sinal da Al Qaeda” e, portanto, tinham imediatamente prolongados o tempo de prisão. É esse “imediatamente” que é chocante. O prisioneiro não foi ouvido, não teve direito à nenhuma defesa, não há testemunhas, há o sinal no pulso, o relógio Casio, a prova única e definitiva! Eis aqui um exemplo terrível do que significa substituir uma escuta pelo olhar, pela imagem. Aliás, só para apimentar o debate, não estará a França no mesmo caminho ao proibir o uso da burca por mulheres islâmicas em suas ruas? Como diz Vladimir Safatle na mesma Folha de hoje, aguarda-se nas próximas horas a proibição do hábito das freiras católicas também. A segunda notícia veio dos repórteres Rod Nordland e Scott Shane no The New York Times de ontem. Eles descobriram que um dos mais perigosos terroristas do mundo, segundo a “inteligência”, preso e trancado incomunicável em Guantánamo durante mais de 5 anos, o sr. Abu Sufian Ibrahim Ahmed Hamuda bin Qumu, foi transferido à Líbia e hoje é um dos líderes “revolucionários” contra a ditadura de Muamar Kadafi. Incrível! De “perigoso terrorista” à “líder revolucionário” num piscar de olhos. Quem decidiu isso? Quem estabelece que 5 anos é o tempo de “conversão” deste homem? Quem define o relógio Casio como sinal de uma rede terrorista? Quando a maior democracia do mundo está nas mãos de um juiz invisível desses, de um juiz tirano e sem controle, de um juiz que não se pode ver nem duvidar, sequer recorrer, então ela já não é mais uma democracia. Como demonstrou tão bem o genial cineasta indiano-norte-americano M. Night Shyamalan, no indispensável “A Vila”, que é sua resposta ao seriado “Arquivo X”, a verdade não está lá fora. Está aqui dentro. O que é o terrorismo da Al Qaeda perto do nosso terrorismo?


Fonte: Rod Nordland e Scott Shane na reportagem "Libyan Makes Journey From Detainee to Rebel - and U.S. Ally of Sorts" in The New York Times, 25/4/2011.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O TREM-BALA DOS FASCISTAS PODE PASSAR

Fonte: Folha de São Paulo, 18/4/2011.

Villa-Lobos nos deu para sempre o imortal trenzinho caipira. Com seus miseráveis, com seus desconhecidos, com seus emigrantes, com seus amantes, o trem caipira fala do deslocamento, do movimento, da despedida e de uma nova chegada, nova estação. É de chorar de tão bonito, de tão trágico, de tão humano. Porém, basta sair do Brasil e entrar na Europa, que o trem vira Outro. A Europa dá pena. Em primeiro lugar, porque não existe. Existe uma colcha de retalhos, muito mal costurada, feita de alhos com bugalhos. Falar de trem na Europa dá medo. Basta lembrar o nazismo e os trens fora dos horários normais, lotados de judeus em direção à morte em linha de desmontagem dos campos de concentraçãos invisíveis, feitos para não deixar restos, vestígios, pegadas. E falar em nazismo é falar nos rincões da Europa, as pequenas cidades, as pequenas regiões, bem longe do glamour de Paris, da movida de Madri, dos encantos de Roma ou de uma Berlim multifacetada. Não. A Europa dá pena porque é feita de gente muito pequena, gente muito hostil, uma gentinha muito fascista. Basta dar dois passos para fora das grandes cidades para constatar o óbvio: os antigos muros medievais continuam lá, porém aperfeiçoados, com versões revistas e melhoradas. Gente que já fez da Espanha um pesadelo franquista, já fez da Alemanha o horror nazista – basta lembrar que os nazistas ganharam as eleições democraticamente – já fez da Itália a farsa fascista. Já fez? É muito otimismo, perdão. A Itália é governada hoje por um partido político sustentado pelas maiores empresas do norte da Itália, algumas das mais ricas empresas do mundo, feitas pelos netos e bisnetos de imigrantes e cuja plataforma política é delenda imigrantes, morte aos imigrantes – lembro bem da resposta estupefata de alguns italianos a me dizer, “mas você quer comparar os africanos com os imigrantes italianos?”. Aliás, os fascistas são toscos, são obtusos, são filhos das putas, mas não são burros. Ontem na Itália eles fizeram um golpe genial de propaganda. Encheram um trem de “manifestantes”, puseram um nome-fantasia, “trem da dignidade” e despacharam-no para a França – não é a França que grita o tempo todo pelos direitos humanos? Não é a França a defensora da liberdade, da igualdade e da fraternidade? Então divirtam-se. O trem é de vocês. E o que fez o governo francês? Um governo às vésperas de novas eleições, nas quais, para variar, a extrema direita aparece muito bem na foto, à frente das pesquisas, então esse governo acuado, esse governo medroso, esse governo apavorado deu uma resposta à altura dessa Europa de fachada – bloqueou o trem, criou um novo muro de Berlim. Tudo, menos a negrada africana por aqui. Que a negrada desdentada se espalhe pela Itália suja, que a negrada faminta se vire nesta Itália desgovernada, Itália tosca – por que deixou esses desgraçados entrarem? Que seguisse nosso exemplo e os barrasse lá fora, lá nos países de origem deles – vamos ocupar militarmente esses países, como fizemos na Argélia, tomar conta deles, como na Argélia, ensinar para essa negrada que eles devem continuar para sempre trabalhando de graça para nós, extraindo o petróleo deles para nossas empresas e que eles nunca mais repitam o que os ingratos argelinos fizeram. Incompetentes italianos. Não fizeram isso, que se lixem agora. Enquanto isso, a Alemanha assiste de camarote – não sem garantir o funcionamento 24 horas de seus “centros de detenção” dos imigrantes turcos e africanos. Não participou da guerra na Líbia, não quer saber de trem dos outros nenhum – ela tem os próprios – quer apenas passar para o mundo a ideia de que ela é uma grande empresa, um grande negócio, o maior exportador da Europa – vendas, vendas e vendas – atentem para o outro significado de venda, algo feito para cobrir os olhos. Muito atenta à propaganda, elegeu uma mulher, uma “presidenta” para fazer isso, para ser a gerente do boteco, e assim fazer de conta que o passado passou, acabou, não retornará nunca mais. Ora, o recalcado retorna, é a lei de Freud – para os presidentes e para as presidentas. O trem dos imigrantes é o símbolo desse retorno do recalcado, desse fracasso chamado Europa. Em nome da democracia, o fascismo se imporá novamente. Vai ganhar as próximas eleições. Otimismo de novo. Já ganhou na Itália, já ganhou na França e já ganhou na Alemanha. O trem dos fascistas circula livremente e é muito bem recebido por onde passa. Triste Europa.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

RATOS


Fonte: primeira página da Zero Hora, 23/2/2011.

Depois da saída de George W. Bush da presidência dos Estados Unidos, eu estava com saudade dos grandes filhos da puta. Na categoria dos filhos da puta, há os pequenos filhos da puta e há os grandes filhos da puta. Kadafi pertence a esta divisão. “Capturem os ratos. Tirem-nos de suas casas e acabem com eles, onde quer que estejam”. É a frase do ano. Nunca antes se ouviu coisa parecida. Aliás, relembrando Lacan, quando um ditador começa a falar de ratos, sem querer, está falando de si mesmo - é o que significa receber a própria mensagem de forma invertida. Ora, qual é a maior arma deste pútrida, deste calhorda perigosíssimo? São exatamente esses esfomeados, estropiados, esses fodidos que ele carinhosamente chama de “ratos” - em um outra variante, ele os chama de “agentes do imperialismo ianque”. A Itália e a Europa acompanham em pânico o desfecho desta revolução. Há o pavor de que, como vingança, essa ratazana-mor que se pensa gato abra as comportas para que os “ratos” invadam o continente europeu através da ilha de Lampedusa. Hordas de “ratos”, milhares de “ratos” se espalhando no meio de armanis e pradas, chanéis e mercedinhos, à procura de comida, à procura de abrigo, à procura do paraíso de Dante. Um terror, um pesadelo inimaginável. Ontem o fascista de plantão, Umberto Bossi, uma espécie de Kadafi-dois-ponto-zero, representante de todas as indústrias da parte norte da Itália, a parte “nobre”, cujo único projeto em 63 anos de república foi o de cortar fora a parte “sul” do país, os “miseráveis”, os “vagabundos” do sul, gritava enlouquecido que iria mandar os “ratos” africanos para a Alemanha – que a “sua” Itália não merece isso. Não é banal verificar mais uma vez a falta de memória histórica presente em todo fascista? Como assim a Itália não merece isso? Depois do que a Itália fez na Líbia durante as duas grandes guerras, quando a invadiu, a bombardeou, a sacaneou de todas as formas possíveis, a Líbia invadir a Itália é pouco. Eu torço para que isso aconteça. Que essa Itália fascistinha, que essa Itália narcisista seja arejada pela África, que aconteça com a Itália o que aconteceu com o mundo quando seus miseráveis vieram como imigrantes. Afinal de contas, um país que mantém Silvio Berlusconi no poder pode dizer o que de Kadafi? Nada. Que venham os africanos. É o que de melhor pode acontecer com a Itália.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

ECCE-HOMO

Fonte: primeira página do Globo, 10 de novembro de 2010.

Falando em filho da puta...o ex-presidente, hoje consultor de empresas e mega-palestrante – esteve em São Paulo recentemente, em setembro, para um mega-evento reunindo 400 mega-empresários que o aplaudiram de pé – escreveu sua auto-biografia. É o livro do ano. Vai virar capa da Veja, destaque da Exame e colunista da Você S.A. Sugiro ao democrático jornal O Estado de São Paulo, que acabou de demitir a psicanalista Maria Rita Kehl por ter escrito um artigo em que analisava a imbecilidade da nova direita no Brasil, que faça agora a justa substituição. Nada mais simbólico.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A MORTE DE UM FILHO DA PUTA

Primeira página do Página 12 de Buenos Aires, 9 de novembro de 2010.

Como escrever o epitáfio de um filho da puta? O brilhante Página 12 de Buenos Aires responde em sua edição histórica de hoje, para ler, guardar, pregar nos postes de cada cidade: “O inferno é pouco”. Morreu o filho da puta, o assassino, o torturador, o líder do campo de concentração chamado Escuela Superior de Mecánica de la Armada (ESMA), paródia macabra de Auschwitz. Morreu o filho da puta que tingiu de sangue para sempre o Rio da Prata, cemitério transformado, leito das dores, dos membros disjuntos, torcidos e retorcidos, línguas cortadas, corpos dilapidados, mortos insepultos, sem direito a nome, à memória, ao luto. Filho da puta. Que seja jogado aos pedaços no mesmo rio que profanou. Filho da puta.