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terça-feira, 17 de maio de 2011

CAMAREIRA

“Temos que ser gratos a Louis Malle por ter revelado o jeito de andar de Jeanne Moreau em Ascensor para o cadafalso [Ascenseur pour l'Échafaud, 1957]. Sempre fui sensível ao andar das mulheres, bem como ao seu olhar. Em O diário de uma camareira [Le Journal d'une femme de chambre, 1964], durante a cena das botinas, tive verdadeiro prazer ao fazê-la caminhar e ao filmá-la. Seu pé, quando ela anda, treme ligeiramente no calcanhar do calçado. Atriz maravilhosa, eu me contentava em segui-la, apenas corrigindo-a. Ela me ensinou sobre o personagem coisas de que eu não suspeitava.”

Luis Buñuel in Meu Último Suspiro. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 335.

Diálogo entre o acusado e a juíza:

- Eu vi Jeanne Moreau na camareira.
- Inocente. Não culpado. Estás liberado.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

COMPLEXO


“Variante ovoide de la desocupación de la esfera” [Variante ovóide da desocupação da esfera] (1958) de Jorge Oteiza em Bilbao, Espanha, às margens do rio Nervión. Está desde 2002 em frente ao Ayuntamiento [Prefeitura] e, feita em aço, tem 8 metros de altura e 6 metros de diâmetro e pesa mais de 16 toneladas. Os bilbaínos a chamam carinhosamente de “txapela a medio lao”, em referência ao símbolo de identidade do País Basco, a boina, colocada sobre a cabeça “a medio lao”, meio de lado. Bilbao já foi conhecida como “cidade do ferro”, em função das montanhas que a cercam, ricas em minério de ferro. Desde o século XVIII, a cidade desenvolveu forte indústria siderúrgica e de construção naval. Fotografia de Aitor Ramos, em 2008.

“ÉDIPO:
Então devo concluir: ninguém me fez?”

Édipo Rei de Sófocles na tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 86.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

CERRAÇÃO

“Escultura de niebla # 08025 (F.O.G.)” de Fujiko Nakaya no Museo Guggenheim Bilbao – instalação permanente no espelho de água que circunda o museu, com duração de 5 minutos, em horas incertas. Doação de Robert Rauschenberg.

Fios de névoa.

domingo, 19 de setembro de 2010

QUANDO AS PEDRAS VOAM


Rocío Molina e sua companhia de dança no Flamenco Festival de Barcelona, em 21 de maio de 2010.

Da pedra, o voo. Hoje à noite, na XVI Bienal de Flamenco de Sevilha, “Cuando las piedras vuelen”. Gradiva.

sábado, 18 de setembro de 2010

GRADIVA

Rocío Molina, bailaora [dançarina de flamenco], por Cristóbal Manuel in El País, 18 de setembro de 2010.

“Yo sólo me dejo llevar”
Rocío Molina em entrevista a Ángeles Castellano in El País, 18 de setembro de 2010.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

FRAGILIDADE

“Nomade” de Jaume Plensa, escultura furada de 8 metros de altura no Bastion Saint-Jaume em Port Vauban, Quai Rambaud, em Antibes. Fotografia de Mick Donnelly em 6 de setembro de 2007.

“Sílvio Barsetti - Você define seu livro [“Ribamar”, ed. Bertrand Brasil] como uma travessia, na qual só lhe restava inventar uma verdade. Que verdade é essa?
José Castello - A verdade precária, incompleta e frágil que a literatura nos oferece. O mundo contemporâneo é arrogante. Temos sempre que vencer - na carreira profissional, no mundo acadêmico, no mercado de capitais, na copa do mundo. Não suportamos os derrotados e, no entanto, trazemos a derrota no coração. É o encontro com o fracasso que nos dá a possibilidade de invenção. Aprendi isso lendo ficções. Em um mundo cada vez mais pragmático e duro, a literatura se torna o último reduto da fragilidade. Nela, o sujeito ainda pode dizer que falha, que não sabe, que se sente desamparado e perdido. E nem por isso precisa desistir de ser.”

Entrevista de José Castello a Sílvio Barsetti in O Estado de São Paulo, 15 de agosto de 2010.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

GRADIVA

Yaqueline Lugo por Gorka Lejarcegi in El País, 16 de agosto de 2010.

Lola Galán traz no El País a história de Yaqueline Lugo, nascida em Cuba há 31 anos e caixa de supermercado em Colmenar Viejo, a 30 km. ao norte de Madri. Essa mulher trocou o inferno socialista pelo paraíso capitalista. Essa linda cubana, que fez o caminho inverso dos conquistadores espanhóis, querendo o novo, a capital, Madri, teve que ir morar a 60 km. dela, na serra norte, em Bustarviejo. Querendo um marido no trabalho, ela descobre que não há trabalho para seu marido espanhol de 56 anos, demitido de uma empresa de transporte desde setembro de 2008. Querendo filhos, lhe dói mais essa renúncia em nome de uma “crise” que ela percebe só valer para alguns. Querendo trabalho digno, teve que aceitar um contrato aviltante de uma “jornada móvel” de no mínimo 70 horas por mês e, no máximo, 140 horas – ou seja, ela nunca sabe quanto tempo ficará em casa, cada dia reserva uma surpresa – ora agradável, ora desagradável. Querendo debater as condições de trabalho nessa Europa filha do Iluminismo, organizou o primeiro comitê sindical neste supermercado filho da puta. Resultado: foi demitida com a justificativa padrão “foi a crise”. Ela, nada boba, nada quieta, nada medrosa, levou seu problema à Justiça, recorreu ao Ministério do Trabalho, ganhou. Voltou ao trabalho pela força da lei, agora com horas livres garantidas para a atividade sindical. Porém, para Yaqueline basta. Dessa terra prometida ela já não quer mais saber. Como viver em um paraíso que exige o silêncio e o medo para funcionar? Ela diz, ela, humana, fala, ela, gente, não coisa, não resto, não mercadoria, deseja: “Carencias tiene Cuba. Pero es mejor eso que la tortura de vivir en la abundancia de aquí sin acceso a ella” [“Cuba é uma carência só, mas pelo menos é melhor do que essa tortura de viver na abundância daqui sem ter nenhum acesso a ela”] . Que coisa mais linda! Ela, ao avesso do que querem lhe convencer, avessa a toda propagandaiada da tv, papagaiada xarope vinte e quatro horas por dia, quer voltar para Cuba. O marido, com uma filha de outro casamento e família na Espanha, não quer. Yaquelín, linda, querida, responde: “Pero sé de todas todas que yo le convenzo” [“Com jeitinho, eu lhe convenço, logo logo”]. Que cubana adorável! Que mulher mais linda! Gradiva!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O POETA QUE DISSE NÃO A PICASSO














“Retrato de Dora Maar” de Pablo Picasso, 1937 no Museu Picasso de Paris.

Rodrigo Fernández, correspondente do El País em Moscou, enviou de lá uma história saborosa. Às vésperas de completar 77 anos, o poeta russo Yevgueni Yevtushenko se presenteou com um museu construído em Peredélkino, a “vila dos escritores”, localizada às margens de Moscou, aos arredores, nos arrabaldes, no lugar que em Carazinho nós damos o justo nome de zona, lugar-limite, na fronteira, fora do centro, deslocado, desviado, retirado. Neste não-lugar, o poeta contou como é que chegou em suas mãos o desenho de Pablo Picasso que ele doou ao Estado junto com o resto de fotografias e escritos que fazem parte agora do acervo deste museu. Foi assim: um dia Picasso ofereceu a Yevtushenko a fabulosa possibilidade de escolher qualquer uma das telas que tinha naquele momento em seu ateliê. O poeta respondeu a Picasso: “Não posso aceitar, pois não gosto de nenhuma”. O pintor, espantado, lhe perguntou qual a razão desse desgosto. E aí Yevtushenko respondeu que com toda a certeza uma mulher tinha ferido Picasso profundamente e por causa disso ele tratava tão mal a todas elas em suas obras - “Eu, ao contrário, adoro as mulheres, porque durante a guerra, na Sibéria, fui criado por duas magníficas: minhas avós.” Sensacional! Aliás, o próprio Yevtushenko se compara ao contar isso com a inesquecível, magnífica Nastácia Filíppovna, personagem que tomou conta de Dostoiévski e o obrigou a escrevê-la em “O Idiota” - em português, na ótima tradução de Paulo Bezerra – o que segue está na p. 204, ed. 34, 2002 -, no instante em que ela joga um pacote de cem mil rublos no fogo! Epifânica mulher! Yevtushenko-Nastácia disse não a Picasso. De poeta para poeta.