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terça-feira, 21 de junho de 2011

PARA BOBBY FISCHER COM AMOR

Bobby Fischer por Harry Benson/Life Magazine. “Em uma de suas longas caminhadas durante a disputa do título mundial de xadrez contra Boris Spassky, da Rússia, na Islândia, Bobby Fischer e Harry Benson foram passear em um campo onde alguns cavalos selvagens pastavam, e um deles se aproximou de Fischer, que amava animais. “Harry, Harry, ele gosta de mim!”, Fischer falou. Mais tarde eles saíram procurando por eles novamente, mas não os encontraram. “Ele ficou desapontado, mas nunca falou nada sobre isso”, disse Benson.” (fonte: Dylan Loeb McClain in Capturing Bobby Fischer, The New York Times, 19/6/2011).

Fechado num apartamento no Brooklyn,
um menino faz da partida da Dama, a razão de encontrá-la
e perdê-la novamente. Mas agora sob
seu controle, fazendo a cidade inteira virar
sessenta e quatro casas do tabuleiro.
E com o cavalo do rei e com o cavalo da dama,
movimentos em eles, letras e pronomes,
ele pula de Nova Iorque para Zurique,
de Zurique para Mar del Plata,
de Mar del Plata para Estocolmo,
de Estocolmo para Leipzig,
de Leipzig para Reykjavik.
Partidas.
Fechado numa casa em Carazinho,
um menino descobre com o outro como derrotar
a Variante do Dragão. Dragão Verde que um dia
o pai contou, descontou, foi. Dragão.
E a Dama?
De Ruy Lopez à Defesa Siciliana,
da Defesa Índia do Rei à Abertura Inglesa,
esse guri jogado, jogador,
um peão,
perde o grande torneio de Passo Fundo.
Às damas.

domingo, 19 de junho de 2011

VARIANTE

Bobby Fischer em seu quarto de hotel em Reykjavik, na Islândia, em 1972, durante a disputa e conquista do título mundial contra Boris Spassky da Rússia, com o tabuleiro ao lado da cama caso tivesse alguma ideia durante a noite – da mesmo forma como ele tinha em seu apartamento no Brooklyn, em Nova Iorque, onde aprendeu a jogar xadrez aos 7 anos com sua irmã mais velha que o entretinha com diversos jogos enquanto a mãe ia trabalhar. Fotografia de Harry Benson, enviado pela revista Life para fazer uma reportagem fotográfica sobre ele. Fonte: Dylan Loeb McClain in Capturing Bobby Fischer, The New York Times, 19/6/2011.

E se Dmitri Dmitritch Gurov fosse Bobby Fischer?
Ou vice-versa.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A MÃO VISÍVEL QUE NÃO APARECE NA FOTO

“Golias, chegou o Davi.”
Fonte: anúncio do leitor de livros digital Nook, da Barnes & Noble, principal concorrente da Amazon, in The New York Times, 6/6/2011.

Sublime! Não há síntese melhor do capitalismo do que este anúncio. Para o bem e para o mal. É um sistema em que os Golias podem tomar conta, podem engolir mercados inteiros, podem fazer oligopólios, podem acabar com a concorrência, porém é também o sistema em que os Davis podem surgir, podem combater, podem criar alternativas, podem estabelecer diferenças. Porém, sempre com a mão bem visível do Estado para amparar – por exemplo, experimente querer fazer um leitor digital brasileiro entrar no mercado norte-americano. Esqueça. Golias e Davi têm que ser nossos ou ao menos fabricados em nosso quintal, sob nossas condições – essa é a mão do terceiro invisível no anúncio, o Estado. Sobre isso, recentemente a The Economist mostrou que um ingênuo e bobinho empreendedor, recém-chegado no estado de Utah, que pretende se virar como um Davi barbeiro, um cortador de cabelos, terá de ficar mais de um ano fazendo cursos e provas estabelecidos pela associação dos barbeiros locais e pela prefeitura do lugar para conseguir uma licença, ou seja, uma livre-iniciativa que Kafka teria calafrios, cheia de regras, burocracias e dificuldades (fonte: “Rules for fools”[Regras para os tolos] in The Economist, 12/5/2011). Isso para ser barbeiro. Imagine o resto. Então, voltemos a esta imagem: dois visíveis e um invisível onipresente e onisciente. Eis aí o capitalismo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

SOLIDIFICAÇÃO

Fotografia de T Colla.

“Richard Serra disse uma vez que ele foi para a Universidade da Califórnia em Santa Bárbara para estudar literatura e aprender a surfar”.

Christopher Benfey in “Richard Serra's Mind-Expanding Sculptures”, Slate, 6/6/2007.

sábado, 28 de maio de 2011

RETRATO DO FERREIRO QUANDO JOVEM

“Torse de jeune fille [I]” [Torso de uma jovem] em ônix por Constantin Brancusi, em 1922. Harvard Art Museums, Fogg Art Museum, Cambridge, the Louis Orswell Collection, 1998. Fotografia President and Fellows of Harvard College/Junius Beebe.

Fietta Jarque, do El País, foi até a Suíça encontrar o ferreiro-artista Richard Serra, na abertura da exposição genial que a Fundação Beyeler organizou das obras de Serra e do romeno, naturalizado francês, Constantin Brancusi. A exposição fica até 21 de agosto na Suíça e depois vai para o museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha. É daquelas entrevistas para se ler em voz alta nos jardins de infância, se pregar nos postes das cidades, chorar de alegria. Ela começa assim:

“Jarque – Qual é a relação do sr. ou da sua escultura com Brancusi?
Serra – Não creio que exista uma conexão paralela entre a obra de Brancusi e a minha. O que posso dizer de minha parte é que, quando era estudante, entre 1964 e 1965, tive uma bolsa de estudos de um ano em Paris. Eu já era pintor na época, mas não escultor. Fui ver a reconstrução do ateliê de Brancusi, que estava no Museu de Arte Moderna, e me senti tocado e inspirado por ele. Fui ver essa exposição vários dias e fiz desenhos de suas esculturas. Fiz esses desenhos porque para mim o desenho é a forma como o volume corta o fio das coisas. O interior se desenha e se desenha também o exterior. É nessa fina linha que o desenho ocorre. E enquanto observava o estúdio de Brancusi, me dei conta de que em seus cortes e modelos, ele desenhava com a escultura, da mesma maneira que Cézanne desenhava nas pinturas. Fiquei impressionado com essa ideia. Desde então não voltei a ver a escultura da mesma maneira. Isso foi como um despertador para mim.

Jarque – O sr. se refere à escultura abstrata de Brancusi...
Serra – Brancusi é como um manual de instruções. Ele é a austeridade e a simplicidade das formas. Mas se queres representação, ali também encontrarás. Se queres abstração, lá estará. Se queres volume, também. Ou a justaposição. E sempre está feita das formas mais simples e da imaginação, de tal maneira que eu nunca tinha visto antes. Algo ali me atraiu para sempre sem saber porque, e voltei dia após dia para fazer meus desenhos. Quando fui embora de Paris, já pensava em me dedicar à escultura. Se não fosse essa bolsa de estudos, provavelmente eu nunca teria me tornado escultor. Pois bem, isso foi há 40 anos. Se hoje me perguntam se Brancusi foi uma influência posterior, eu digo que não. Foi apenas o princípio. Foi ele quem engendrou em mim a possibilidade de fazer-me escultor. Porque a escultura consiste realmente em aceitar que se pode inventar formas. E acredito que Brancusi foi capaz de reduzir a forma a uma ideia muito simples.

Jarque – Suponho, além disso, que o estúdio de Brancusi conservado intacto parecia guardar muitos de seus segredos.
Serra – Sim, ele retinha uma aura. Você quase podia sentir a sua presença ali, embora ele já não estivesse. A atmosfera do ateliê era impressionante. Quanto a essa exposição de agora, que relaciona a obra de Brancusi com a minha, eu não diria que há nexos diretos. Mas uma das coisas que Brancusi demonstrou foi a possibilidade de retirar a escultura de seu pedestal. Eu penso na escultura Coluna Infinita, a de madeira. Brancusi cortou a peça medindo exatamente a altura do chão ao teto na galeria Brummer de Nova Iorque, em 1926. Ele mediu o espaço, no contexto. Foi algo excepcional porque depois disso ele seguiu fazendo obras sobre o pedestal. Mas essa ideia de alguém medindo o espaço no lugar da exposição, levando em conta o espaço do lugar, a paisagem de fora, me impressionou demais. Eu queria trabalhar a escultura fora do pedestal, porque quando consegue isso, consegues fazer com que o espectador veja a escultura ao nível de sua própria experiência. Se pensas em uma pintura dentro de seu marco de referência, o que está pintado permanece dentro desse enquadre. Mas em uma peça como esta [aponta o dedo para sua obra Olson], te moves, podes andar por ela, através dela, e isso muda a tua experiência em relação ao espaço. De tal modo que a peça não depende de sua imagem, mas sim do que o espectador experimenta dentro dela, ao redor dela ou desde diferentes pontos de vista.”

Fonte: entrevista de Richard Serra a Fietta Jarque in Babelia, El País, 28/5/2011.

“Olson” em aço por Richard Serra, em 1986. Exibição na Fundação Beyeler, Riehen/Basel, Suíça. Coleção do artista. Fotografia de Lorenz Kienzle.

terça-feira, 24 de maio de 2011

PRENDAM O FACEBOOK


Fonte: Thomas L. Friedman, The New York Times in O Estado de São Paulo, 23/5/2011.

O genial Ben Schott decidiu construir um gráfico no The New York Times de domingo que é um primor de informação reduzida à sua essência. Ele compara o período de tempo que durou a presidência em diversos países do mundo de 1977 até 2011. Lá está o Brasil com seus 9 presidentes neste período, enquanto a Síria, por exemplo, tem o mesmo número que Cuba, China e a Coréia do Norte: 2. A Rússia e ex-União Soviética aparece com 5. Israel, para desespero de seus vizinhos, aparece com 10. A campeã, incrível, é a Líbia, em que o fascista de camelo do Kadafi aparece como único presidente em todo esse período de tempo. Não deixa de ser revelador que este reles ditador seja o Ideal do Eu de certa esquerda – é que ele conseguiu realizar a fantasia da imortalidade no poder. Pobre Fidel. Era para ser dele o troféu. Tadinho do velhinho. Mexeram no queijo dele.

Fonte: Ben Schott in The New York Times, 22/5/2011.

sábado, 21 de maio de 2011

PORCOS

“Sexo. Mentiras. Arrogância. O que faz homens poderosos agirem como porcos - sem querer ofender os porcos”
Fonte: Time, 14/5/2011.


A conservadora revista Time, espelho da América “profunda”, aquela dos grotões de onde sairam os bushes e as saras palins, decidiu soltar a franga. Em uma capa que recende a um certo feminismo em defesa das pobres mulheres, ela chama os homens de porcos. Assinada por Nancy Gibbs, a reportagem é bem feitinha, daquelas que tiram nota dez nas universidades, porém de uma ingenuidade e tolice comparáveis a uma jumenta, só para ficar no terreno da zoologia, o escolhido pela revista. Ela parte do pressuposto de que quem age como porco é porque o poder subiu à cabeça. Para defender esta tese, lá estão os especialistas de sempre fazendo o que melhor sabem fazer, ou seja, falar no lugar de quem não falou. Um psicólogo de uma Harvard qualquer, um biólogo evolucionista de uma Stanford da vida, mais uma pitada de “social commentators”, ou seja, sociólogos e outros logos, e voilà, ecce-homo, perdão, ecce porco. Porém, justiça seja feita, Nancy Gibbs ironiza de modo magistral a ridícula posição do jornal Le Monde nesse episódio, que estampou em sua manchete o bisonho “o que sabemos sobre a camareira?”, dizendo de modo explícito que a vítima foi a culpada, bem como traz as palavras da besta quadrada do filósofo Bernard-Henri Lévy, conselheiro espiritual do presidente Sarkozy e principal mentor da intervenção militar da França na Líbia, a “guerra do bem”, para “mostrar aos norte-americanos como se faz uma guerra limpa” - pasme o leitor que este asno se considera filósofo! E o que diz Bernard-Henri Lévy? Ele ficou indignado pela juiza norte-americana ter tratado Dominique Strauss-Kahn como “um qualquer”. Um horror para um francês bem nascido. Aliás, é nesse tom de “herói” que o Le Point apresenta sua capa: “a queda”, como se estivéssemos lidando aqui com um novo Adão – desta vez sem a folha de parreira, porque isso é coisa de pobre, isso é coisa de plebeu, coisa que não condiz com uma suíte imperial, convenhamos. Já o Le Nouvel Observateur compara o personagem a nada mais nada menos que Dante Alighieri! Pobre Dante, pobre Itália. Nós não merecemos isso. A grande graça é o não-dito de que o inferno em questão se chama Estados Unidos da América. Se fosse em Paris...


“A queda”
Fonte: Le Point, 19/5/2011.


“DSK – A descida ao inferno”
Fonte: Le Nouvel Observateur, 19/5/2011.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

OS ESTADOS UNIDOS SÃO DE MARTE

“Acusado libertado”
Fonte: Libération, 20/5/2011.

Em um brilhante artigo publicado ontem e intitulado “Decoding DSK – What his fall says about transatlantic differences in attitudes to sex, power and the law” [Decodificando Dominique Strauss-Kahn – O que a sua queda diz sobre as diferenças transatlânticas – entre Estados Unidos e Europa – em relação ao sexo, ao poder e à lei], a britânica The Economist, lembra que em matéria de sexo, como na guerra, os europeus são de Vênus, enquanto os americanos são de Marte. Ou seja, os europeus riem dos puritanos norte-americanos que caem em desgraça quando descobertos pulando a cerca, ao contrário dos franceses onde ter duas casas é uma tradição, é motivo de orgulho – o mesmo para uma Itália governada por um Casanova de opereta, o fascistinha de roupão Silvio Berlusconi. A revista adverte que essa suposta superioridade européia traz o risco de criar uma cultura de silêncio e de impunidade que facilmente ultrapassa a fronteira entre o permitido e o ilegal, como nos casos de corrupção. Ela cita a acusação feita aos Estados Unidos de transformarem a justiça em um espetáculo, onde um acusado aparece algemado na mídia antes de ter sido declarado culpado por um júri, para o horror de uma Europa que considera isso inaceitável. Então, a revista conclui assim, de modo magnífico, seu argumento:

“Beyond such differences in legal cultures, one fact is inescapable. In America a modest African immigrant has obtained a swift response from the police to her complaint of sexual assault. Mr Strauss-Kahn’s innocence or guilt will be determined in court. But New York’s authorities have not shirked from arresting the head of one of the world’s leading international bodies, nor from demanding that he be kept in jail on remand. It is worth asking: would this have happened in Paris or Rome?”
Fonte: The Economist, 19/5/2011.

[Além dessas diferenças culturais em relação à lei, um fato é indiscutível. Nos Estados Unidos, uma pobre imigrante africana obteve uma rápida resposta da polícia em sua queixa de estupro. A inocência ou a culpa do sr. Strauss-Kahn será determinada na corte. Mas as autoridades de Nova Iorque não hesitaram nem um minuto em levar para a prisão o chefe de uma poderosa instituição internacional, nem em mantê-lo lá até segunda ordem. Vale a pena perguntar: e se isso tivesse acontecido em Paris ou em Roma?]

quinta-feira, 19 de maio de 2011

USEIRO E VEZEIRO


“- Acusam o chefe do FMI de estupro e assédio sexual.
- Contra quais países?”

Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, Buenos Aires, 19/5/2011.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

BALANGANDÃ

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 18/5/2011.

Na maravilhosa charge de Chico Caruso, eis que o ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, vem dar seu apoio moral ao chefe do FMI, Dominique Strauss-Kahn. É que no mesmo dia da prisão de Strauss-Kahn, o ator admitiu ter tido um filho com a empregada da casa. Ora, há uma diferença enorme entre o ato de Schwarzenegger o e o ato de Strauss-Kahn. Até onde se sabe, houve atração mútua e consentimento para Schwarzenegger e houve estupro no caso de Strauss-Kahn. Porém, uma questão toca a ambos. É aquela que o gigante Dorival Caymmi imortalizou: o que é que essas baianas têm? Uma camareira, a outra empregada. E as duas desequilibraram, desnortearam, enlouqueceram esses homens. Será que foram os torços de seda delas? Será que os brincos de ouro? Ou as sandálias enfeitadas? O que leva um homem a cair por cima de uma mulher? Aqui Caymmi novamente é brilhante. Ele diz: “quando você se requebrar, caia por cima de mim”. É tão lindo isso. Há um pedido em jogo, e não a violência. Há condição, a espera, esse “quando” magnífico. Para além de querer interpretar algo que só pode ser feito escutando um por um a esses homens, o pedido de Caymmi é que essa baiana caia por cima dele – não é ele que cai sobre ela. O conjunto dos homens não cai, pois não requebra, é duro, é inflexível. Daí esse “we”, esse “nós” que supostamente simbolizaria a força, o poder, porém Caymmi sorri e acrescenta...a força de fazer um pedido. A queda está do lado delas, essas que não fazem conjunto, pois não ficam paradas no mesmo lugar, e por isso requebram, como requebram, daí a força do sexo feminino. Daí o pedido dos fracos, dos masculinos, onde cair também quer dizer ficar caidinha por esse homem, significa parar por um momento a deriva ou, quiçá, para sempre, e agora recobrir esse homem, grudar em sua pele, o dois virar o um – e aí, só aí, pode-se responder o que é que a baiana tem. Ela tem aquilo que me falta, aquilo que não tenho, aquilo que busco, aquilo que não sou, aquilo que vai me completar. Ela tem o bom fim do amor.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O DEMÔNIO DO SEXO

“Inteligência, prestígio, poder – Um homem de grande destino queimado pelo demônio do sexo”
Fonte: Bernardo Valli in La Repubblica, 16/5/2011.


Cada país noticiou a prisão espetacular do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, por crime sexual (estupro) contra uma camareira de um hotel de Nova Iorque à sua maneira. Mas ninguém supera a Itália quando se trata de sexo. Só lá você vai encontrar o “demônio do sexo” à solta! Sensacional!! É claro que, se estivéssemos na Grécia, o demônio significaria outra coisa, como em Sócrates por exemplo – ali, “daimon” quer dizer uma força superior ao sujeito. Na Itália não. Não se vive ao lado do Vaticano de graça. Demônio na Itália quer dizer o tinhoso, o arrenegado, o pimenta, o maligno, o cujo, o tição, o cão, o coisa-à-toa. Alguns detalhes picantes retirados da reportagem do enviado especial do La Repubblica, Angelo Aquaro: aconteceu quando a camareira da suíte imperial do 28o. andar do sofisticadíssimo Sofitel de Times Square, de 32 anos, negra, foi chamada para limpar o quarto “vazio”, porém, surpresa, apenas tendo adentrado nesta câmara ardente, sai do banho, nu em pelo, este Mr. Jones com o diabo no corpo, sem Prada nas vestes, com o tridente à vista, já caindo literalmente sobre ela tentando sodomizá-la primeiro, ela lutou, saiu correndo, ele a pegou de volta – o diabo não descansa – e aí fez ela se ajoelhar e a rezar pela sua cartilha, sejamos explícitos – noblesse oblige – a obrigou a provar da maçã. O demônio do sexo, tal qual Lucrécia, saciado sim, satisfeito nunca, foi embora temporariamente. Instalado confortavelmente na primera classe do voo da Air France para Paris, ei-lo retirado à força do avião e obrigado a prestar contas – logo ele, aquele que cobra as contas dos devedores, dos pactantes – à polícia de Nova Iorque. Do paraíso à delegacia de polícia. Haverá lugar mais simbólico para um diretor do FMI se explicar?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

HÁ DIFERENÇA SEXUAL

Fotografia de Pete Souza, fotógrafo oficial da Casa Branca, na “Situation Room” [Sala de Controle] da Casa Branca no dia em que o terrorista Osama Bin Laden foi morto.

Enquanto a fanfarronice masculina do planejamento, da operação, das armas, da elite da elite dos SEALS, a força mais especial treinada sob o lema “o único dia fácil foi ontem” se impõe como vencedora, a intrigante presença de Hillary Clinton na fotografia do dia D contra o terrorismo, na sala de controle da Casa Branca, em Washington, acompanhando em tempo real a morte de Bin Laden, com a mão na boca – depois ela revelou que cobriu a boca por causa de uma tosse devido à uma de suas alergias de primavera – revela uma Madonna que não reconhece seu filho mas, ainda assim, o vê de modo diferente dos demais naquela sala predominantemente masculina. A tosse de Hillary Clinton merece destaque. Ela fala da diferença sexual, ela diz mais do que parece. Um outro dado muito interessante nesta fotografia que o genial José Miguel Wisnik em sua coluna do Globo de sábado comparou à Velásquez e sua obra “As Meninas”, é que aquilo que não nos é mostrado, não nos é dado a ver, trata-se de uma voz. Da voz do diretor da CIA, que do outro lado do rio Potomac, em Langley, na Virgínia, sede central da CIA, relatava o ataque à casa de Bin Landen. Ora, que todos nesta sala estejam como que subordinados à voz deste Supereu maluco e desgovernado que é a CIA, causa perplexidade. É como se o poder civil de um presidente estivesse de lado, aliás como a fotografia mostra muito bem. Na cadeira do presidente não está o presidente, mas sim o general da Força Aérea e comandante das Forças Especiais, Marshall B. “Brad” Webb. Aliás, cabe aqui uma brincadeira séria: para combater a rede al-Qaeda, nada melhor que um Webb [Rede]!!
Ora, a tosse de Hillary Clinton aponta para esta desarmonia evidente, mas não falada. A tosse fala, a tosse interrompe o gozo masculino, a tosse pede passagem, a tosse questiona, a tosse faz mancha neste quadro. A propósito, só há mais uma mulher na foto, Audrey Tomason, diretora da luta contra o terroristmo, em pé. Mas é Hillary Clinton quem tosse. Ela é a encarnação da feminilidade nesta tosse. Ao contrário do que pode parecer, sua tosse não é fingimento. Ela revela outra fragilidade em questão. A fragilidade de um poder civil nas mãos do poder militar.

“- Hillary Clinton disse que viveu os 38 minutos mais intensos da sua vida.
- B
ill Clinton respondeu: “Então comigo foi fingimento?”
Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, Buenos Aires, 9/5/2011.

domingo, 8 de maio de 2011

EXCLUSIVO

Fonte: primeira página do Globo, 8/5/2011.

Velhinho? De gorro? Com barba branca? Mataram o Papai Noel!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

ANESTESIA MORAL

A tumba de Gerônimo na base militar Fort Still em Oklahoma, em 2005. Fonte: Wikipedia.

Em um artigo excelente no El País de hoje, José Ignacio Torreblanca diz o seguinte:

“Nada resume melhor o desastre de comunicação deste último ato do drama que começou em setembro de 2011 com o atentado contra as Torres Gêmeas, do que dar a Bin Laden o nome de código “Gerônimo”, o mítico chefe apache que passou à história americana por – leia-se bem agora – seu feroz espírito de resistência diante de um inimigo superior. Seus biógrafos dizem que durante os 23 anos de confinamento na reserva de San Carlos, ele foi submetido a numerosas humilhações, entre elas a de ser exibido como um troféu na cerimônia inaugural do governo do presidente Theodore Roosevelt e, pior ainda, a de ser obrigado a abraçar publicamente a fé cristã. Assim, o que se conclui da leitura da biografia de Gerônimo é que a superioridade tecnológica de um povo não necessariamente implica em sua superioridade moral.”

Fonte: José Ignacio Torreblanca in “Anestesia Moral”, El País, 6/5/2011.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O RETORNO DO RECALCADO

O sioux “Afraid of Hawk” [Com Medo do Falcão] segurando um tomahawk, c. 1899, provavelmente em Oglala, Dakota do Sul. Fotografia de Herman Heyn in Library of Congress Rare Book and Special Collections Division, Washington D.C.

“Gerônimo” é Bin Laden, “Apache” é o helicóptero e “Tomahawk” o míssil.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

GERÔNIMO

Então a tropa de elite dos Estados Unidos deu o nome de código “Gerônimo” para se referir a Bin Laden. Ora, Gerônimo não merece esta associação. Gerônimo nunca foi terrorista. Gerônimo foi líder dos apaches, foi o homem que disse não aos espelhinhos que o governo dos Estados Unidos da América ofereceu como compensação pela apropriação à força de todas as suas terras e o genocídio programado de todo o seu povo. Não deixa de ser interessantíssimo se perguntar por que escolher este nome de código e não outro. Não haveria aqui o reconhecimento, mesmo que inconsciente, de que ao lidar com Bin Laden se está lidando com alguém que não encarna só a figura do bandido, do assassino, do mal, mas também alguém que se rebela, que se revolta, que se indigna contra a invasão de suas terras, a morte de seu povo? Aliás, a decisão dos Estados Unidos de, à la Argentina da pior ditadura militar, jogar o corpo de Bin Laden no mar levanta muitas questões. A mais antiga delas vem de Sófocles, que em Antígona faz Tirésias dizer ao governante Creonte o seguinte: “poupa esse cadáver. Pode ser façanha assassinar um morto?” (fonte: Antígona de Sófocles, na tradução de Guilherme de Almeida in Três Tragédias Gregas, de Guilherme de Almeida e Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 78). Os Estados Unidos decidiram não poupar o cadáver, parece que com o medo de que a cova em que ele fosse enterrado se transformasse em uma espécie de santuário. O problema dessa decisão é que ela igualou o ato do terrorista com o ato de um Estado não terrorista. É próprio da definição de terrorismo o sequestro de um corpo sem a devolução dele para a família. Qualquer Estado em que haja desaparecidos em sua história, como o Brasil, é um Estado que já foi governado por terroristas. Voltando a Gerônimo, ele morreu como prisioneiro de guerra dentro de um forte apache, dentro de instalações militares do governo dos Estados Unidos. Gerônimo não foi assassinado depois de morto.

terça-feira, 3 de maio de 2011

OBAMA MORREU

Fonte: rede de TV Fox News, 2/5/2011.

Foi sem querer...querendo. A fascistinha rede de TV Fox News se atrapalhou ao dar a notícia sobre a morte do terrorista Osama Bin Laden. Em um ato falho clamoroso, enquanto o apresentador lia as informações sobre o caso, uma legenda dizia que “Obama Bin Laden morreu”. Sensacional!! Isso é o que significa matar dois coelhos com uma cajadada. Há muito que o presidente Obama é tratado como terrorista. Há dois crimes que metade dos Estados Unidos não perdoa em seu presidente: primeiro, o de ser negro, segundo, o de trepar. A mudança da ordem dos fatores não altera o produto. São duas coisas imperdoáveis, inaceitáveis, insuportáveis. Cada vez que a linda, a maravilhosa, a querida, a tesão da Michelle Obama aparece junto de seu marido, as metralhadoras, carabinas e canhões dessa América profunda, América pateta, América racista, América puritana, América feia disparam, atiram, tentam recalcar de volta o que veio à tona. Ontem foi a cereja no topo do bolo. “Obama Bin Laden morreu”. Epifânico ato falho. Mas fiquem tranquilos. Nas profundezas da América racional, da América inteligente, em Harvard, a Gisele Bündchen das universidades, lá vem mais uma pesquisa médica a ser divulgada em horário nobre, declarando por a mais b e 2 mais 2 que o inconsciente não existe, ato falho é bobagem e que Freud estava errado, além de estar morto, é claro. Certa está a Fox News, perdão, a Medicina News. Pausa para os comerciais de nossos patrocinadores, as pilulazinhas para os deficitários de atenção aqui, para os deprimidos ali, para os em pânico acolá, para os que não sabem o que têm – não se preocupem, nós sabemos!! -, para os perdedores em geral. Djá, djá em sua casa. Com as facas Ginsu de brinde!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

LIMBO

“Detalhes de vidas no limbo norte-americano”. Fotografia de Brennan Linsley/Associated Press na reportagem de Charlie Savage, William Glaberson e Andrew W. Lehren in The New York Times, 25/4/2011.

Sobre o horror de Guantánamo, o campo de concentração inventado pelos Estados Unidos após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, duas notícias que fizeram Kafka se revirar no túmulo espantado. A primeira delas, traduzida na Folha de São Paulo de hoje, veio do repórter James Ball do inglês The Guardian. Ela diz que prisioneiros capturados com relógio Casio no pulso eram automaticamente suspeitos de pertencer à rede terrorista Al Qaeda, sendo o relógio um “sinal da Al Qaeda” e, portanto, tinham imediatamente prolongados o tempo de prisão. É esse “imediatamente” que é chocante. O prisioneiro não foi ouvido, não teve direito à nenhuma defesa, não há testemunhas, há o sinal no pulso, o relógio Casio, a prova única e definitiva! Eis aqui um exemplo terrível do que significa substituir uma escuta pelo olhar, pela imagem. Aliás, só para apimentar o debate, não estará a França no mesmo caminho ao proibir o uso da burca por mulheres islâmicas em suas ruas? Como diz Vladimir Safatle na mesma Folha de hoje, aguarda-se nas próximas horas a proibição do hábito das freiras católicas também. A segunda notícia veio dos repórteres Rod Nordland e Scott Shane no The New York Times de ontem. Eles descobriram que um dos mais perigosos terroristas do mundo, segundo a “inteligência”, preso e trancado incomunicável em Guantánamo durante mais de 5 anos, o sr. Abu Sufian Ibrahim Ahmed Hamuda bin Qumu, foi transferido à Líbia e hoje é um dos líderes “revolucionários” contra a ditadura de Muamar Kadafi. Incrível! De “perigoso terrorista” à “líder revolucionário” num piscar de olhos. Quem decidiu isso? Quem estabelece que 5 anos é o tempo de “conversão” deste homem? Quem define o relógio Casio como sinal de uma rede terrorista? Quando a maior democracia do mundo está nas mãos de um juiz invisível desses, de um juiz tirano e sem controle, de um juiz que não se pode ver nem duvidar, sequer recorrer, então ela já não é mais uma democracia. Como demonstrou tão bem o genial cineasta indiano-norte-americano M. Night Shyamalan, no indispensável “A Vila”, que é sua resposta ao seriado “Arquivo X”, a verdade não está lá fora. Está aqui dentro. O que é o terrorismo da Al Qaeda perto do nosso terrorismo?


Fonte: Rod Nordland e Scott Shane na reportagem "Libyan Makes Journey From Detainee to Rebel - and U.S. Ally of Sorts" in The New York Times, 25/4/2011.