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quinta-feira, 2 de junho de 2011

BIGORNA

“Anvil” [bigorna] por Harold Ross, no Hagley Museum and Library, em Wilmington, Delaware, em 29/5/2008.

A bigorna, minha ferramenta,
para as artes e os ofícios.
Para as artes,
azartes, az-zahr.
Em árabe, flor.
Ofício de tradutor.

terça-feira, 31 de maio de 2011

FUSÃO

Barbara Hepworth por Jorge Lewinski/The Lewinski archive at Chatsworth in “Barbara Hepworth: Queen of the Stone Age” de Jonathan Jones in The Guardian, 2/5/2011.

O que fazer do furo? Habitá-lo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

SOLIDIFICAÇÃO

Fotografia de T Colla.

“Richard Serra disse uma vez que ele foi para a Universidade da Califórnia em Santa Bárbara para estudar literatura e aprender a surfar”.

Christopher Benfey in “Richard Serra's Mind-Expanding Sculptures”, Slate, 6/6/2007.

domingo, 29 de maio de 2011

FERREIRA

Escultura de Barbara Hepworth em frente ao museu The Hepworth Wakefield inaugurado em 21 de maio, em Yorkshire, Inglaterra. Fotografia de Sarah Lee in The Guardian, 19/5/2011.

Às margens do rio Calder,
em Yorkshire,
nasce uma rosa,
desenhada por David Chipperfield,
para abrigar, para cuidar,
de uma escultora que morreu queimada,
em seu estúdio, seu afazer,
Barbara Hepworth, o nome,
aquela que foi transformada
pelo ferro, pela pedra
em palavra.

sábado, 28 de maio de 2011

RETRATO DO FERREIRO QUANDO JOVEM

“Torse de jeune fille [I]” [Torso de uma jovem] em ônix por Constantin Brancusi, em 1922. Harvard Art Museums, Fogg Art Museum, Cambridge, the Louis Orswell Collection, 1998. Fotografia President and Fellows of Harvard College/Junius Beebe.

Fietta Jarque, do El País, foi até a Suíça encontrar o ferreiro-artista Richard Serra, na abertura da exposição genial que a Fundação Beyeler organizou das obras de Serra e do romeno, naturalizado francês, Constantin Brancusi. A exposição fica até 21 de agosto na Suíça e depois vai para o museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha. É daquelas entrevistas para se ler em voz alta nos jardins de infância, se pregar nos postes das cidades, chorar de alegria. Ela começa assim:

“Jarque – Qual é a relação do sr. ou da sua escultura com Brancusi?
Serra – Não creio que exista uma conexão paralela entre a obra de Brancusi e a minha. O que posso dizer de minha parte é que, quando era estudante, entre 1964 e 1965, tive uma bolsa de estudos de um ano em Paris. Eu já era pintor na época, mas não escultor. Fui ver a reconstrução do ateliê de Brancusi, que estava no Museu de Arte Moderna, e me senti tocado e inspirado por ele. Fui ver essa exposição vários dias e fiz desenhos de suas esculturas. Fiz esses desenhos porque para mim o desenho é a forma como o volume corta o fio das coisas. O interior se desenha e se desenha também o exterior. É nessa fina linha que o desenho ocorre. E enquanto observava o estúdio de Brancusi, me dei conta de que em seus cortes e modelos, ele desenhava com a escultura, da mesma maneira que Cézanne desenhava nas pinturas. Fiquei impressionado com essa ideia. Desde então não voltei a ver a escultura da mesma maneira. Isso foi como um despertador para mim.

Jarque – O sr. se refere à escultura abstrata de Brancusi...
Serra – Brancusi é como um manual de instruções. Ele é a austeridade e a simplicidade das formas. Mas se queres representação, ali também encontrarás. Se queres abstração, lá estará. Se queres volume, também. Ou a justaposição. E sempre está feita das formas mais simples e da imaginação, de tal maneira que eu nunca tinha visto antes. Algo ali me atraiu para sempre sem saber porque, e voltei dia após dia para fazer meus desenhos. Quando fui embora de Paris, já pensava em me dedicar à escultura. Se não fosse essa bolsa de estudos, provavelmente eu nunca teria me tornado escultor. Pois bem, isso foi há 40 anos. Se hoje me perguntam se Brancusi foi uma influência posterior, eu digo que não. Foi apenas o princípio. Foi ele quem engendrou em mim a possibilidade de fazer-me escultor. Porque a escultura consiste realmente em aceitar que se pode inventar formas. E acredito que Brancusi foi capaz de reduzir a forma a uma ideia muito simples.

Jarque – Suponho, além disso, que o estúdio de Brancusi conservado intacto parecia guardar muitos de seus segredos.
Serra – Sim, ele retinha uma aura. Você quase podia sentir a sua presença ali, embora ele já não estivesse. A atmosfera do ateliê era impressionante. Quanto a essa exposição de agora, que relaciona a obra de Brancusi com a minha, eu não diria que há nexos diretos. Mas uma das coisas que Brancusi demonstrou foi a possibilidade de retirar a escultura de seu pedestal. Eu penso na escultura Coluna Infinita, a de madeira. Brancusi cortou a peça medindo exatamente a altura do chão ao teto na galeria Brummer de Nova Iorque, em 1926. Ele mediu o espaço, no contexto. Foi algo excepcional porque depois disso ele seguiu fazendo obras sobre o pedestal. Mas essa ideia de alguém medindo o espaço no lugar da exposição, levando em conta o espaço do lugar, a paisagem de fora, me impressionou demais. Eu queria trabalhar a escultura fora do pedestal, porque quando consegue isso, consegues fazer com que o espectador veja a escultura ao nível de sua própria experiência. Se pensas em uma pintura dentro de seu marco de referência, o que está pintado permanece dentro desse enquadre. Mas em uma peça como esta [aponta o dedo para sua obra Olson], te moves, podes andar por ela, através dela, e isso muda a tua experiência em relação ao espaço. De tal modo que a peça não depende de sua imagem, mas sim do que o espectador experimenta dentro dela, ao redor dela ou desde diferentes pontos de vista.”

Fonte: entrevista de Richard Serra a Fietta Jarque in Babelia, El País, 28/5/2011.

“Olson” em aço por Richard Serra, em 1986. Exibição na Fundação Beyeler, Riehen/Basel, Suíça. Coleção do artista. Fotografia de Lorenz Kienzle.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

MEDITERRÂNEO

Rio da Várzea em Carazinho, após cheia. Fotografia de Francine Oliveira in Diário da Manhã, 31/3/2011.

“Antico, sono ubriacato dalla voce
ch'esce dalle tue bocche quando si schiudono
come verdi campane e si ributtano
indietro e si disciolgono.
La casa delle mie estati lontane
t'era accanto, lo sai,
là nel paese dove il sole cuoce
e annuvolano l'aria le zanzare.
Come allora oggi in tua presenza impietro,
mare, ma non più degno
mi credo del solenne ammonimento
del tuo respiro. Tu m'hai detto primo
che il piccino fermento
del mio cuore non era che un momento
del tuo; che mi era in fondo
la tua legge rischiosa: esser vasto e diverso
e insieme fisso:
e svuotarmi così d'ogni lordura
come tu fai che sbatti sulle sponde
tra sugheri alghe asterie
le inutili macerie del tuo abisso.”

“Antigo, sou inebriado pela voz
que sai de tuas bocas ao se abrirem
como verdes campanas e se jogam
para trás e dissolvem.
A casa dos verões meus, distantes,
estava ao pé de ti, bem sabes disso,
lá na terra onde o sol é escaldante
e o ar se anuvia com os mosquitos.
Como então petrifico em tua frente,
mar, porém não mais digno
me creio hoje da solene advertência
do teu alento. Logo me disseste
que o diminuto fermento
do meu coração era só um momento
do teu; que em mim estava no fundo
tua arriscada lei: ser vasto e diverso
e fixo ao mesmo tempo:
e esvaziar-me assim de todo dejeto
como fazes tu que atiras nas bordas
com cortiças algas astérias
os destroços inúteis de teu abismo.”

Trecho do maravilhoso “Mediterrâneo” de Eugenio Montale in “Ossos de Sépia”. São Paulo: Cia. das Letras, 2002, pp. 114-115. Tradução de Renato Xavier.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

FERRARI

“Love Bug” de Michael Dweck no belíssimo “The End: Montauk, N.Y.”, publicado por Harry N. Abrams, New York, 2004.

quarta-feira, 23 de março de 2011

F-15

Líbios inspecionam um F-15 norte-americano que caiu em Bu Mariem. Fotografia de A.Niedrighaus/AP in El País, 23/3/2011.

Um F-15 espatifado, um F-15 despedaçado, um F-15 partido. Isso não poderia ter acontecido, se acontecido não poderia ser fotografado, se fotografado não poderia ser exibido, se exibido eu não poderia ter visto. Tudo, menos isso. Esta é a fotografia do fracasso irremediável, do que não é mais, do avesso de um F-15, a morte seca – bem longe da tua respiração barulhenta, teu ronco lindo a romper o céu, doce cantiga de ninar, a velocidade da luz, o limite incomensurável, o ultrapassar daquilo que se chama distância, a força em movimento contínuo, vitória régia. Um F-15 no céu é a obra-prima do ferreiro, com suas tenazes, com seu martelo, na forja, deu a vida por essa máquina perfeita, máquina valente, máquina formidável – ele é seu filho brilhante, seu filho estrela, seu filho constelação, seu filho imbatível, um colosso. Um F-15 não pode cair, um F-15 não pode ser derrubado, um F-15 não pode deixar de existir. Isso não aconteceu. É montagem, é propaganda de guerra, é mentira deslavada. Eu não aceito isso. Eu recuso. Mas minhas lágrimas me traem, me fazem recolher esses restos e dizer para quem quiser ouvir, meu pobre Yorick. Eu o construí para me continuar, com toda a infinita graça, a espantosa fantasia. Mil vezes me carregou nas costas – onde andam agora tuas cambalhotas? Eu jazo contigo, meu filho. Bu Mariem é nosso túmulo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

TOBRUK


Um regimento dos granadeiros italianos desembarca em Trípoli entre 10 e 12 de outubro de 1912. Fotografia in La Repubblica, 25/2/11.

Eu sou um Afrika Korps. Estou em Tobruk. Meu sangue alemão dos Schmitz e dos Schwertners ferve, arde, quer vingar meu avô italiano ferido neste deserto, picado por um escorpião feroz. Foi em 1920 quando ele desembarcou na Líbia, transferido para as Tropas Coloniais em Trípoli. Durou 2 anos no deserto inclemente até que um escorpião o picasse. Ele sobreviveu à picada. Eu não. Eu sucumbi, eu padeço, eu grito esta dor. Eu manco. Meu avô derrotado por um escorpião. Inaceitável. Eu embarco agora nos Afrika Korps, eu luto em alemão para vingar os italianos humilhados, os italianos aprisionados. É outra guerra, você já está no Brasil, não importa. Eu viro um rato do deserto, logo eu, um leão, mas eu comando todos os Panzers, eu os faço correr, eu mato, eu venço. Ali onde meu avô sucumbiu, eu conquisto. Ali onde meu avô não foi, eu agora herói, eu Wüstenfuchs, raposa, o marechal de campo, O Libertador, Eu, Erwin Rommel, Führioso. Não haverá mais escorpiões neste deserto vermelho, esburacado, revirado, cemitério a céu aberto. É por você, vovô, é para você. Blitzkrieg. Eu construo falsos tanques com pedaços de árvores e restos de carros, eu, o rei das ilusões, eu ponho os ingleses para correr, amedrontados, despedaçados, ossos espalhados pela areia. Perguntem pelo meu nome em Mersa Brega, em Tripolitania, em Cirenaica, em Benghazi. Perguntem por mim em Bardia, em Salum, em Tobruk. Querido nono, é o que eu te ofereço. Nenhum ferrão irá mais te machucar. Eu, ferreiro, asseguro.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

PANAMERICANA

Fonte: fotografia de Kisaí Mendoza in primeira página do El Universal de Caracas, Venezuela, em 26 de janeiro de 2011.

Há uma fractura en la Panamericana. Há uma fenda lá, há uma brecha, há talisca – ai odalisca – na Panamericana. E quem sou aí? Este ônibus, à la kombi da pequena miss Sunshine, pela rodovia? A casa, dependurada, à margem da Panamericana, terceira margem? O morro, eu-morro? Esse Pan, um pão, deus imortal? O passageiro, pés furados, à caminho? A greta, grito, partida estrada, um bom partido? Há uma fratura. Aqui.

domingo, 21 de novembro de 2010

A LESTE DO ÉDEN

Fonte: Gênesis, livro 4, versículo 22 in Vulgata, Bible Study Tools.

Fonte: Bíblia italiana traduzida por Giovanni Diodati em 1649, Bible Study Tools.


Fonte: The Complete Jewish Bible in chabad.org library.


Tubal-Caim, filho de Zila, um malleator, aperfeiçoador, afiador, polidor, inventor também, seguidor de Caim, descendente, na arte do cobre – cobrador! - e do ferro, mestre de armas, mestre de obras. Ferreiro enfim.

sábado, 20 de novembro de 2010

TUBAL-CAIM

Tubal-Caim ou o inventor da metalurgia por Andrea Pisano, c. 1334-1336, no Campanário de Giotto in Santa Maria del Fiore, Florença.

Ao lado de Adão, de Eva, da música, do pastoreio, do vinho, lá está, à oeste, Tubal-Caim, o inventor da metalurgia. A seu lado, ao sul, a astronomia, a arquitetura, a medicina, a caça, a tessitura, a legislatura e Dédalo. No outro lado, a leste, a navegação a remo, a justiça, o cultivo, o teatro, a geometria. Mais um pouco, ao norte, a escultura, a pintura, a gramática, a filosofia, a música, a aritmética, a astronomia. Isso fez Andrea Pisano na base do campanário de Giotto na Catedral de Florença, Santa Maria del Fiore. Trabalho de ferreiro.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

Fonte: Irene Maria Scalise in La Repubblica, 19 de novembro de 2010.

Irene Maria Scalise traz hoje no indispensável La Repubblica a confirmação daquilo que já se desconfiava, porém faltava a prova. O famoso canivete suíço, do qual os suíços se gabam, ganham a vida vendendo, não é uma invenção suíça. Foi invenção de um Ferrari romano há dois mil anos. A prova foi descoberta pelo imparcial Fitzwilliam Museum, museu de Cambridge, que logo o colocou em exposição. Trata-se de um instrumento feito de ferro e prata, com 15 centímetros, contendo uma colher, um garfo, uma faca, uma espécie de palito para os dentes e outros artefatos. Que os suíços me desculpem, mas o genial Orson Wells na pele de Harry Lime via Graham Greene resumiu tudo no filme O Terceiro Homem:

“Na Itália, durante os trinta anos em que os Bórgias estiveram no poder, houve guerra, terror, violência e assassinatos, mas ainda assim lá surgiram Michelangelo, Leonardo Da Vinci e a Renascença. A Suíça, com toda a sua fraternidade e seus 500 anos de democracia e paz, produziu o quê? O relógio cuco.”

Sensacional! Quanto ao relógio cuco, em breve nova revelação...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PERGUNTAS DE UM FERREIRO

“Perguntas de um trabalhador que lê – Bertolt Brecht (1939)


Quem construiu a Tebas de sete portas?

Nos livros estão nomes de reis.

Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída –

Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas

Da Lima dourada moravam os construtores?

Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China

ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.

Quem os ergueu? Sobre quem

Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio

Tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária

Atlântida

Os que se afogavam gritaram por seus escravos

Na noite em que o mar a tragou.


O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Sozinho?

César bateu os gauleses.

Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada

Naufragou. Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.

Quem venceu além dele?


Cada página uma vitória.

Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande homem.

Quem pagava a conta?


Tantas histórias.

Tantas questões.”


Bertolt Brecht traduzido por Paulo César de Souza in Bertolt Brecht – Poemas 1913-1956. São Paulo: ed. 34, 6ª. ed., 2001, p. 166.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

FABER FERRARIUS


Fonte: Bible Study Tools, consultado em 2 de novembro de 2010.

Na Bíblia, no Velho Testamento, Livro de Isaías, capítulo 44 e versículo 12, o faber ferrarius ali está. É o artesão ferreiro, que lima operatus, do limão faz limonada, est in prunis et in malleis formavit, lindo isso, ele faz o machado e trabalha nas brasas, no calor, dá forma ao informe, afia e desafia, formavit illud et operatus, ilude a natureza à marteladas, opera, bate e rebate sobre a matéria, mas, ai, ai, ai, suae esuriet et deficiet, sua, faminto, cansa quando non bibet aquam et lassescet, quando não bebe daquela água, desfalece. Ferra-se.

domingo, 31 de outubro de 2010

FUNDIÇÃO


“Frayed” [Puída] de Tommy Ton na Paris Fashion Week in Jak e Jil blog, 17 de outubro de 2010.

Barra mansa.

sábado, 30 de outubro de 2010

SIDERÚRGICA


Angel por Robert Longo in “Balcony” [Sacada], 2008, Nova Iorque.

Volta redonda.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

DOBRA

Obra de Amilcar de Castro, sem título, 1985. Aço, 110x250x250 cm., aquisição Reitoria USP no Jardim de Esculturas do Museu de Arte Contemporânea, MAC, da USP, Universidade de São Paulo.

“Diante das peças de Serra, a própria arquitetura, praça ou rua que as abriga parece frágil, recente, feita de papelão, e o mundo estranhamente ameaçado, como o próprio eixo vertical-horizontal do espectador. São artefatos pré ou pós-históricos, capazes de abalar a orgulhosa auto-suficiência do capitalismo tardio. Por isso são muros de ferro, apoiados na própria curvatura ou na parede que os abriga, obstaculizando o trajeto e a vista do público. Em Amilcar, ao contrário, é a dobra (e a fissura) o eixo de tudo – é ela quem põe a peça de pé (espécie de enigma primário de toda escultura), e é ela também quem deixa o mundo entrar, multiplicando as vistas para quem percorre o trabalho. A dobra, a partícula de conexão, está no centro do pensamento de Amilcar, que opera assim a partir de uma espécie de troço primal, de “sono rancoroso do minério” [verso de Carlos Drummond de Andrade], que no entanto se parte e se oferece a uma gramática [referência a Ronaldo Brito, “Tempo e Espaço” in Amilcar de Castro, São Paulo, Takano editora, 2001]. É este desdobrar da peça em mundo, este ir-e-vir da opacidade do peso à transparência do vão, que está no centro da poesia de Amilcar. Estes dois momentos aparecem, nas peças de corte-e-dobra, equilibrados numa tensão sóbria que as peças de corte reduzirão depois ao mínimo, transformando os vazios do primeiro grupo de trabalhos em fissuras, rebarbas onde a luz, mais do que a vista, penetrará.”

Nuno Ramos em “O Ferro Futuro (Amilcar de Castro)” in Ensaio Geral. São Paulo: Globo, 2007, p.168.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

TÊMPERA

Detalhe de uma das cinco esculturas em aço que compõem “Wake” [Despertar] de Richard Serra in Seattle Art Museum’s Olympic Sculpture Park, Estados Unidos.

Asso.