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terça-feira, 14 de junho de 2011

CAMINHO AÉREO


Fonte: Luisa Valle in O Globo, 14/6/2011.

Como aquele que,
perdido no labirinto por tentar uma saída
de lado, pela frente,
seguiu o fio daquela,
Ariadne,
ele fez o que aquele não fez,
saiu pelo ar.

O fio não estava no chão.
O nome dela não é Ariadne.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

ARDOR



E muitas vezes, na praça ou no parque, quando não havia ninguém nas proximidades, ele de repente a puxava para si e a beijava com ardor.”

Anton Tchekov em A Senhora com o Cachorrinho in Lendo Tchekov de Janet Malcolm. Tradução de Tatiana Belinky, Ediouro, 2005, pp.188.


sábado, 9 de abril de 2011

APAVORANTE

Fonte: primeira página do jornal O Globo, 9/4/2011.

Em meio ao horror de Realengo, a repórter Bette Lucchese do Jornal Nacional foi entrevistar o professor Luciano Anderson Faria que, com suas decisões, com suas palavras e com seu corpo, fazendo força com o pé na porta fechada para que o assassino não entrasse na sala de aula, salvou a vida da turma inteira de 40 alunos. E o professor Luciano falou o seguinte àqueles que sobreviveram:

“Queria pedir que eles tivessem muita força nesse momento e que eles continuassem acreditando no trabalho dos professores da equipe da escola e que a gente, juntos, reunidos, nós vamos conseguir resgatar o que a escola é pra gente, uma família, um lugar de formação da cidadania e um lugar de paz, de conhecimento, de aprendizagem, um lugar que resgata pessoas para a sociedade” (fonte: entrevista de Luciano Anderson Faria a Bette Lucchese no Jornal Nacional de 8/4/2011).

Eu gostaria de dizer ao professor Luciano que me emocionei demais com seus atos e com seu depoimento. Eis aí um professor de escola pública brasileira. Um professor que fala em equipe, que fala em formação de cidadania, que fala em conhecimento, que fala em resgatar pessoas para a sociedade. Eis aí uma escola com 40 alunos numa turma. Não 70, não 200, não 300. Quão longe estamos do que a educação se transformou no Brasil: numa mercadoria cara, voltada à uma formação pobre e precária para uma entidade chamada “mercado”, um lugar de segregação e de pregação doutrinária de um único pensamento, o de se dar bem, ser um “vencedor” acima de tudo e de todos, os outros vistos como perdedores, aqueles que “não servem mais”, os restos a serem descartados, demitidos, cortados como se fossem cebolas, a sociedade como um lugar que não interessa, o Estado como inimigo feroz, o conhecimento transformado numa coleção de dicas e técnicas, “macetes” para “chegar lá” na frente dos outros, qualquer teoria combatida duramente em favor da “prática” burra, a pior prática, aquela que se pretende isenta de teoria, aquela arrogante, besta, totalitária, que se julga “sem ideologias”, como se isso fosse possível, e a ausência total de pesquisa – custa muito caro, não é mesmo? Mais barato é copiar, é papagaiar, é gritar frases feitas, é motivar com mantras, é seguir a boiada, sem sequer perceber que há um guia, há um guru, há um líder, essa é a palavra da moda, lucrando horrores com essa manada passiva, manada dopada, a definitiva tropa de elite, ajoelhada e rezadora, daí o impedimento a qualquer investigação crítica que possa revelar essa impostura, somente a ignorância abissal das mensagens estúpidas, de uma formação irrelevante, tosca, uma formação desumana, só técnica, a técnica acima de tudo – já que o humano pensa, não é mesmo, e pensar está definitavamente proibido, censurado, boicotado de todas as formas, o avesso em suma do que se pode chamar de educação. Em meio à tragédia, encontrar o professor Luciano foi uma epifania. Rara, luminosa, essencial. Muito obrigado, professor Luciano. Com o senhor, o Brasil é um país que deu certo. Já o outro Brasil não pode mais ser chamado de Brasil. É uma outra coisa, não mais sociedade, não mais país, não mais nação. Não é só o assassinato de 12 crianças que assusta. Apavora o assassinato de milhões delas todos os dias, lentamente.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

HORROR

Fonte: O Estado de São Paulo, 8/4/2011.

Seu nome é Steve Jobs. Ou Bill Gates. O que quer dizer isso? Quer dizer que após uma grande tragédia, vem outra chamada “sentido”, “explicação”, “causa”. Pior. Vem o “especialista”, o “aplicador de testes”, o “sabe-tudo”, o “doutor”. Por que o atirador de Realengo fez isso? Não sei. Ele morreu, não pode mais falar. E, cuidado, mesmo se vivo, nada indica que falaria se preso – nem sob a infame prática da tortura. Querer agora “interpretar” o assassino a partir de sua timidez, falta de namorada ou o uso da internet é uma piada perigosa. Por esse crivo, Steve Jobs e Bill Gates deveriam estar atrás das grades. Como prever isso? Não há previsão possível. Nem retirando todas as armas das ruas, nem aplicando testes fajutos e picaretas elaborados “em Harvard”, nem limitando a internet a uma hora por dia, com sites controlados 24 horas por um novo ministério a ser criado, nem realizando o sonho da indústria farmacêutica que é o de distribuir suas pilulazinhas mágicas através das tubulações de água de uma cidade. Nada. Um ato leva muito tempo para ser construído e tem muitas causas. Saber por que alguém em vez de inventar um I-Pad inventa um assassinato horroroso depende desse alguém querer falar disso. Não é o teste de sangue que vai revelar, não são as partes grandes ou pequenas do genoma. As células, assim como as rosas, não falam. Tampouco serve falarem no lugar do sujeito. Mas aí, já é pedir demais àqueles que fazem desse mau costume profissão.