Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O FERRO VEM AÍ

Fonte: Marli Lima e Daniele Madureira in primeira página do Valor, 8/6/2011.

Dois dias depois do anúncio do leitor digital Nook nos Estados Unidos, aparece em destaque no Brasil esta notícia de que a Electrolux vai começar a fabricar ferros de passar roupa em Curitiba. Não é um resumo da ópera estupendo isso? Ferros de passar roupa!! Sensacional! É a nossa resposta aos norte-americanos. Ao Nook, o ferro! Mas espere um momento. “Nossa” resposta? A Electrolux é sueca? Como assim? Ai, ai, ai, ai, ai.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

NOSSOS DESTINOS

Fonte: primeira página do Globo, 26/5/2011.

Em Brogodó, o Rei voltou para proteger a Flor. Só falta definir quem é o Timóteo. Timóteo é o Leonardo da novela das seis, ou seja, é o mal encarnado, é o mal de terno e gravata, é o mal de colarinho branco, é o mal sedutor. Ontem ele bradou contra a bela advogada que à noite vira Diadorim, vira Fubá para conseguir abraçar seu amado Jesuíno, a frase-emblema, a frase-símbolo que define o perverso: “eu sou a lei”. Lá está o filhinho do papai de um coronel falecido renegando a filiação e fazendo de conta que é ele o pai, o filho e o espírito – e não o Jesus-íno – é ele o prefeito, é ele o governador, é ele o Rei – aliás, genial foi o sobrenome que inventaram para Timóteo: Cabral!! Mas, afinal de contas, quem é o Timóteo do governo Dilma Rousseff? Quem é a lei encarnada? Quem é o que pode tudo e não deve satisfações a ninguém? Está aberto o concurso neste blog. Que minhas estimadas leitoras e meus queridos leitores se pronunciem. A hora é grave. A Flor já murchou esses dias em que esteve com pneumonia – é que os ares de Brogodó estão empestiados. Só Miguézim viu o invisível: “o vice vem aí”. Se isso acontecer, eu entro para o bando do capitão Herculano. Eu e Lilica.

terça-feira, 24 de maio de 2011

PRENDAM O FACEBOOK


Fonte: Thomas L. Friedman, The New York Times in O Estado de São Paulo, 23/5/2011.

O genial Ben Schott decidiu construir um gráfico no The New York Times de domingo que é um primor de informação reduzida à sua essência. Ele compara o período de tempo que durou a presidência em diversos países do mundo de 1977 até 2011. Lá está o Brasil com seus 9 presidentes neste período, enquanto a Síria, por exemplo, tem o mesmo número que Cuba, China e a Coréia do Norte: 2. A Rússia e ex-União Soviética aparece com 5. Israel, para desespero de seus vizinhos, aparece com 10. A campeã, incrível, é a Líbia, em que o fascista de camelo do Kadafi aparece como único presidente em todo esse período de tempo. Não deixa de ser revelador que este reles ditador seja o Ideal do Eu de certa esquerda – é que ele conseguiu realizar a fantasia da imortalidade no poder. Pobre Fidel. Era para ser dele o troféu. Tadinho do velhinho. Mexeram no queijo dele.

Fonte: Ben Schott in The New York Times, 22/5/2011.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

BALANGANDÃ

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 18/5/2011.

Na maravilhosa charge de Chico Caruso, eis que o ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, vem dar seu apoio moral ao chefe do FMI, Dominique Strauss-Kahn. É que no mesmo dia da prisão de Strauss-Kahn, o ator admitiu ter tido um filho com a empregada da casa. Ora, há uma diferença enorme entre o ato de Schwarzenegger o e o ato de Strauss-Kahn. Até onde se sabe, houve atração mútua e consentimento para Schwarzenegger e houve estupro no caso de Strauss-Kahn. Porém, uma questão toca a ambos. É aquela que o gigante Dorival Caymmi imortalizou: o que é que essas baianas têm? Uma camareira, a outra empregada. E as duas desequilibraram, desnortearam, enlouqueceram esses homens. Será que foram os torços de seda delas? Será que os brincos de ouro? Ou as sandálias enfeitadas? O que leva um homem a cair por cima de uma mulher? Aqui Caymmi novamente é brilhante. Ele diz: “quando você se requebrar, caia por cima de mim”. É tão lindo isso. Há um pedido em jogo, e não a violência. Há condição, a espera, esse “quando” magnífico. Para além de querer interpretar algo que só pode ser feito escutando um por um a esses homens, o pedido de Caymmi é que essa baiana caia por cima dele – não é ele que cai sobre ela. O conjunto dos homens não cai, pois não requebra, é duro, é inflexível. Daí esse “we”, esse “nós” que supostamente simbolizaria a força, o poder, porém Caymmi sorri e acrescenta...a força de fazer um pedido. A queda está do lado delas, essas que não fazem conjunto, pois não ficam paradas no mesmo lugar, e por isso requebram, como requebram, daí a força do sexo feminino. Daí o pedido dos fracos, dos masculinos, onde cair também quer dizer ficar caidinha por esse homem, significa parar por um momento a deriva ou, quiçá, para sempre, e agora recobrir esse homem, grudar em sua pele, o dois virar o um – e aí, só aí, pode-se responder o que é que a baiana tem. Ela tem aquilo que me falta, aquilo que não tenho, aquilo que busco, aquilo que não sou, aquilo que vai me completar. Ela tem o bom fim do amor.

terça-feira, 10 de maio de 2011

MAIS-VALIA

Fonte: Érica Fraga e Claudia Rolli in Folha de São Paulo, 8/5/2011.

Como? Jornadas de trabalho longas, horas extras frequentes, teleconferências de madrugada, vigilância constante dos chefes, metas de produção irrealistas e inegociáveis? Mas os porcos capitalistas não eram os americanos?

domingo, 1 de maio de 2011

SUCURI

Fonte: O Estado de São Paulo, 1/5/2011. Fotografia de Ernesto Rodrigues/AE na reportagem de Paulo Sampaio.

No dia do trabalho, logo depois de serem obrigados a declarar que no ano anterior tiveram mais de 40% de sua renda subtraída, retirada à força, desviada, roubada, espoliada, esfaqueada, baleada pelo monstro, eles decidiram, num gesto derradeiro, gesto moribundo, escrever na placa o apelido desse filho da puta. Sucuri.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

FERRARI

“Love Bug” de Michael Dweck no belíssimo “The End: Montauk, N.Y.”, publicado por Harry N. Abrams, New York, 2004.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O TREM-BALA DOS FASCISTAS PODE PASSAR

Fonte: Folha de São Paulo, 18/4/2011.

Villa-Lobos nos deu para sempre o imortal trenzinho caipira. Com seus miseráveis, com seus desconhecidos, com seus emigrantes, com seus amantes, o trem caipira fala do deslocamento, do movimento, da despedida e de uma nova chegada, nova estação. É de chorar de tão bonito, de tão trágico, de tão humano. Porém, basta sair do Brasil e entrar na Europa, que o trem vira Outro. A Europa dá pena. Em primeiro lugar, porque não existe. Existe uma colcha de retalhos, muito mal costurada, feita de alhos com bugalhos. Falar de trem na Europa dá medo. Basta lembrar o nazismo e os trens fora dos horários normais, lotados de judeus em direção à morte em linha de desmontagem dos campos de concentraçãos invisíveis, feitos para não deixar restos, vestígios, pegadas. E falar em nazismo é falar nos rincões da Europa, as pequenas cidades, as pequenas regiões, bem longe do glamour de Paris, da movida de Madri, dos encantos de Roma ou de uma Berlim multifacetada. Não. A Europa dá pena porque é feita de gente muito pequena, gente muito hostil, uma gentinha muito fascista. Basta dar dois passos para fora das grandes cidades para constatar o óbvio: os antigos muros medievais continuam lá, porém aperfeiçoados, com versões revistas e melhoradas. Gente que já fez da Espanha um pesadelo franquista, já fez da Alemanha o horror nazista – basta lembrar que os nazistas ganharam as eleições democraticamente – já fez da Itália a farsa fascista. Já fez? É muito otimismo, perdão. A Itália é governada hoje por um partido político sustentado pelas maiores empresas do norte da Itália, algumas das mais ricas empresas do mundo, feitas pelos netos e bisnetos de imigrantes e cuja plataforma política é delenda imigrantes, morte aos imigrantes – lembro bem da resposta estupefata de alguns italianos a me dizer, “mas você quer comparar os africanos com os imigrantes italianos?”. Aliás, os fascistas são toscos, são obtusos, são filhos das putas, mas não são burros. Ontem na Itália eles fizeram um golpe genial de propaganda. Encheram um trem de “manifestantes”, puseram um nome-fantasia, “trem da dignidade” e despacharam-no para a França – não é a França que grita o tempo todo pelos direitos humanos? Não é a França a defensora da liberdade, da igualdade e da fraternidade? Então divirtam-se. O trem é de vocês. E o que fez o governo francês? Um governo às vésperas de novas eleições, nas quais, para variar, a extrema direita aparece muito bem na foto, à frente das pesquisas, então esse governo acuado, esse governo medroso, esse governo apavorado deu uma resposta à altura dessa Europa de fachada – bloqueou o trem, criou um novo muro de Berlim. Tudo, menos a negrada africana por aqui. Que a negrada desdentada se espalhe pela Itália suja, que a negrada faminta se vire nesta Itália desgovernada, Itália tosca – por que deixou esses desgraçados entrarem? Que seguisse nosso exemplo e os barrasse lá fora, lá nos países de origem deles – vamos ocupar militarmente esses países, como fizemos na Argélia, tomar conta deles, como na Argélia, ensinar para essa negrada que eles devem continuar para sempre trabalhando de graça para nós, extraindo o petróleo deles para nossas empresas e que eles nunca mais repitam o que os ingratos argelinos fizeram. Incompetentes italianos. Não fizeram isso, que se lixem agora. Enquanto isso, a Alemanha assiste de camarote – não sem garantir o funcionamento 24 horas de seus “centros de detenção” dos imigrantes turcos e africanos. Não participou da guerra na Líbia, não quer saber de trem dos outros nenhum – ela tem os próprios – quer apenas passar para o mundo a ideia de que ela é uma grande empresa, um grande negócio, o maior exportador da Europa – vendas, vendas e vendas – atentem para o outro significado de venda, algo feito para cobrir os olhos. Muito atenta à propaganda, elegeu uma mulher, uma “presidenta” para fazer isso, para ser a gerente do boteco, e assim fazer de conta que o passado passou, acabou, não retornará nunca mais. Ora, o recalcado retorna, é a lei de Freud – para os presidentes e para as presidentas. O trem dos imigrantes é o símbolo desse retorno do recalcado, desse fracasso chamado Europa. Em nome da democracia, o fascismo se imporá novamente. Vai ganhar as próximas eleições. Otimismo de novo. Já ganhou na Itália, já ganhou na França e já ganhou na Alemanha. O trem dos fascistas circula livremente e é muito bem recebido por onde passa. Triste Europa.

sábado, 9 de abril de 2011

APAVORANTE

Fonte: primeira página do jornal O Globo, 9/4/2011.

Em meio ao horror de Realengo, a repórter Bette Lucchese do Jornal Nacional foi entrevistar o professor Luciano Anderson Faria que, com suas decisões, com suas palavras e com seu corpo, fazendo força com o pé na porta fechada para que o assassino não entrasse na sala de aula, salvou a vida da turma inteira de 40 alunos. E o professor Luciano falou o seguinte àqueles que sobreviveram:

“Queria pedir que eles tivessem muita força nesse momento e que eles continuassem acreditando no trabalho dos professores da equipe da escola e que a gente, juntos, reunidos, nós vamos conseguir resgatar o que a escola é pra gente, uma família, um lugar de formação da cidadania e um lugar de paz, de conhecimento, de aprendizagem, um lugar que resgata pessoas para a sociedade” (fonte: entrevista de Luciano Anderson Faria a Bette Lucchese no Jornal Nacional de 8/4/2011).

Eu gostaria de dizer ao professor Luciano que me emocionei demais com seus atos e com seu depoimento. Eis aí um professor de escola pública brasileira. Um professor que fala em equipe, que fala em formação de cidadania, que fala em conhecimento, que fala em resgatar pessoas para a sociedade. Eis aí uma escola com 40 alunos numa turma. Não 70, não 200, não 300. Quão longe estamos do que a educação se transformou no Brasil: numa mercadoria cara, voltada à uma formação pobre e precária para uma entidade chamada “mercado”, um lugar de segregação e de pregação doutrinária de um único pensamento, o de se dar bem, ser um “vencedor” acima de tudo e de todos, os outros vistos como perdedores, aqueles que “não servem mais”, os restos a serem descartados, demitidos, cortados como se fossem cebolas, a sociedade como um lugar que não interessa, o Estado como inimigo feroz, o conhecimento transformado numa coleção de dicas e técnicas, “macetes” para “chegar lá” na frente dos outros, qualquer teoria combatida duramente em favor da “prática” burra, a pior prática, aquela que se pretende isenta de teoria, aquela arrogante, besta, totalitária, que se julga “sem ideologias”, como se isso fosse possível, e a ausência total de pesquisa – custa muito caro, não é mesmo? Mais barato é copiar, é papagaiar, é gritar frases feitas, é motivar com mantras, é seguir a boiada, sem sequer perceber que há um guia, há um guru, há um líder, essa é a palavra da moda, lucrando horrores com essa manada passiva, manada dopada, a definitiva tropa de elite, ajoelhada e rezadora, daí o impedimento a qualquer investigação crítica que possa revelar essa impostura, somente a ignorância abissal das mensagens estúpidas, de uma formação irrelevante, tosca, uma formação desumana, só técnica, a técnica acima de tudo – já que o humano pensa, não é mesmo, e pensar está definitavamente proibido, censurado, boicotado de todas as formas, o avesso em suma do que se pode chamar de educação. Em meio à tragédia, encontrar o professor Luciano foi uma epifania. Rara, luminosa, essencial. Muito obrigado, professor Luciano. Com o senhor, o Brasil é um país que deu certo. Já o outro Brasil não pode mais ser chamado de Brasil. É uma outra coisa, não mais sociedade, não mais país, não mais nação. Não é só o assassinato de 12 crianças que assusta. Apavora o assassinato de milhões delas todos os dias, lentamente.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

HORROR

Fonte: O Estado de São Paulo, 8/4/2011.

Seu nome é Steve Jobs. Ou Bill Gates. O que quer dizer isso? Quer dizer que após uma grande tragédia, vem outra chamada “sentido”, “explicação”, “causa”. Pior. Vem o “especialista”, o “aplicador de testes”, o “sabe-tudo”, o “doutor”. Por que o atirador de Realengo fez isso? Não sei. Ele morreu, não pode mais falar. E, cuidado, mesmo se vivo, nada indica que falaria se preso – nem sob a infame prática da tortura. Querer agora “interpretar” o assassino a partir de sua timidez, falta de namorada ou o uso da internet é uma piada perigosa. Por esse crivo, Steve Jobs e Bill Gates deveriam estar atrás das grades. Como prever isso? Não há previsão possível. Nem retirando todas as armas das ruas, nem aplicando testes fajutos e picaretas elaborados “em Harvard”, nem limitando a internet a uma hora por dia, com sites controlados 24 horas por um novo ministério a ser criado, nem realizando o sonho da indústria farmacêutica que é o de distribuir suas pilulazinhas mágicas através das tubulações de água de uma cidade. Nada. Um ato leva muito tempo para ser construído e tem muitas causas. Saber por que alguém em vez de inventar um I-Pad inventa um assassinato horroroso depende desse alguém querer falar disso. Não é o teste de sangue que vai revelar, não são as partes grandes ou pequenas do genoma. As células, assim como as rosas, não falam. Tampouco serve falarem no lugar do sujeito. Mas aí, já é pedir demais àqueles que fazem desse mau costume profissão.

terça-feira, 5 de abril de 2011

BEAUTY

KEATS



A thing of beauty is a joy

For ever, Keats exprimiu.

Mas ele próprio sentiu

Quanto essa alegria dói.”



Manuel Bandeira in Bandeira de Bolso: Uma Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 148.

quarta-feira, 30 de março de 2011

REBELDE

Fotografia Reuters in The Telegraph, Londres, 29/3/2011.

No meio do caminho em Wadi al Hamra, na Líbia,
ele, um rebelde descalço, se ajoelha e ora.
Lá de cima, o satélite aliado congela a imagem,
a reproduz e ela vira o centro da missão.
Há que substituir urgente o objeto da adoração,
pagão.
Que este homem seja logo convertido,
ba-ti-za-do,
e vire chapeiro do McDonald's.
Ou como aquele brasileiro matuto cantou,
empacotador das Casas Bahia.
Irmão, a liberdade está chegando.
Você será salvo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

IARA

Dilma Rousseff e Barack Obama depois de recepção para o presidente no Palácio do Alvorada. Fotografia de Wilson Pedrosa/AE na primeira página do jornal O Estado de São Paulo, 20/3/2011.

A belíssima fotografia de Wilson Pedrosa me desconcertou. O que significa esse encontro de dois presidentes em frente ao espelho d'água do Palácio do Alvorada? A escolha de nossa presidente não poderia ter sido mais simbólica, pois do outro lado do espelho estão essas magníficas banhistas de Alfredo Ceschiatti, também conhecidas como Iaras. Estou tentando continuar o raciocínio mas Olavo Bilac não deixa. “Vive dentro de mim, como num rio, uma linda mulher, esquiva e rara”. É demais, não? Vive dentro de mim. Poderia parar neste verso que já seria obra-prima. “Num borbulhar de argênteos flocos, Iara, de cachinhos dourados e corpo frio”. Corpo frio? Mas que diabos Bilac quer dizer com isso? Por que Iara teria o corpo frio? Água fria do rio é uma coisa, mas corpo frio? Ele continua assim, “entre as ninféias a namoro e espio: e ela, do espelho móbil da onda clara, com os verdes olhos úmidos me encara, e oferece-me o seio alvo e macio”. Lindo demais. “Oferece-me o seio alvo e macio”. Me perdi neste seio, nessa alvura, nessa maciez, nesses argênteos flocos. “Oferece-me o seio alvo e macio”. Há que repetir isso em voz alta, declamar com ardor. Como é genial esse Bilac! O poema não termina assim: “precipito-me, no ímpeto de esposo, na desesperação da glória suma [aqui Dilma está dizendo a Obama: cuidado com a desesperação da glória suma na Líbia ou, de forma mais lacaniana, suma logo da Líbia!], para a estreitar, louco de orgulho e gozo... [que coisa linda esses três pontinhos no poema. Por outro lado, essa menção ao gozo, ao perigo do gozo, ao precipício do gozo, ao que está além do gozo, me parece uma clara evocação do que não pode ser escrito, então esses três pontinhos estão no lugar daquilo que não se fala ou, melhor, daquilo que já não pode mais ser falado, pois o sujeito que fala já não existe mais]. E corre o rio “mas nos seus braços, ai, acabo de citar mal, o original diz nos meus braços, a ilusão acaba, se esfuma [esse esfuma é demais], e a mãe d'água, exalando um ai piedoso, desfaz-se em mortas pérolas de espuma”. Espetacular! “Desfaz-se em mortas pérolas de espuma”! Maravilhoso poema! Sensacional! A mãe morreu, daí o corpo frio. Agora, o que continua misterioso, e eis aí o grande artista que foi Alfredo Ceschiatti, é por que ele chama sua obra de “Iaras”. Como assim? Iara não é só uma? Por que Alfredo Ceschiatti duplicou Iara? Talvez a arte seja justamente esse movimento de reviver aquilo que se perdeu, que partiu, a escultura de uma saudade, a presença da ausência. Uma derradeira observação: Iara foi também sereia. E aí fica mais simbólico ainda o ato de Dilma para com Obama: nesse tempo de “Aurora da Odisséia”, há uma “Alvorada” diferente, com um outro canto das sereias, que fala de banhos, de seios, da morte também, mas não mais da morte matada, mas da outra, a morrida, daquilo que é esquivo e raro, a palavra na política, os encontros possíveis daqueles que decidem fazer de um palácio a morada das palavras, dos acordos, enquanto vida houver. Estará nosso Ulisses com os ouvidos tapados de cera?

domingo, 20 de março de 2011

AURORA DA ODISSÉIA

Hillary Clinton chegando ao Palácio do Eliseu em Paris, horas antes do presidente da França, Nicolas Sarkozy, anunciar o início dos bombardeios à Líbia. Fotografia de G. Fuentes/Reuters in El País, 20/3/2011.

Eu compartilho do júbilo, da alegria e do orgasmo de Hillary Clinton. Foi o ex-presidente Ronald Reagan – que ganhou uma homenagem sensacional do historiador da direita lúcida, da direita inteligente, da direita humana, Paul Johnson em seu livro divertidíssimo “Os Criadores” - que diagnosticou de forma precisa quem é o ditador de turbante, o fascistinha de Agadir Muamar Kadafi: “cachorro louco”. Excelente! A pergunta incômoda, da qual essa direita foge como o diabo da cruz, é por que a águia deixou o cachorro ficar tanto tempo no poder. E aí a resposta dói. Dói porque revela algo do perguntador que ele não gostaria que fosse mostrado, que fosse revelado, que viesse à luz do dia – daí o pavor que a psicanálise gera nesse país. É que esta águia não é só águia, ela é também morcego. Isso, convenhamos, é insuportável. O cachorro louco ficou no poder tanto tempo porque ele nos servia, ele nos pagava, ele nos era necessário. O exemplo mais espetacular disso é a relação amorosa entre a “inteligência” universitária européia e norte-americana com o animal em questão. Eis que vem à luz em um século longe demais das Luzes, a cegueira notável da London School of Economics em conceder o título de doutor ao filho do ditador, digamos então, ao cachorrinho louquinho, a partir de uma tese totalmente falsificada, plagiada, copiada. Mais: a excelente
The Economist, em sua edição de 12/3/2011, descobriu que até o guru de Harvard, o mitológico Michael Porter, autor da nova bíblia “Vantagem Competitiva”, aceitou o agrado monetário, o afago pecuniário do totózinho alucinado para fazer um plano de reaproximação entre a Líbia e o ocidente – e ele não foi o único. Luciana Coelho trouxe na Folha de São Paulo de 7/3 a notícia impressionante de que uma consultoria norte-americana, com sede em Cambridge, Massachusetts, a Monitor Group, trabalhou por mais de 4 anos para o regime do cachorrão com o objetivo de ajudá-lo a “polir a imagem do país e da sua própria perante o mundo”. Entre os flanelinhas contratados para o polimento estão o professor Joseph Nye de Harvard e o professor Anthony Giddens da reincidente London School of Economicsnaugthy boy. Especula-se que a benesse, o capilé, a sinecura, o benefício tenha girado em torno de US$ 250 mil dólares por mês! Nunca antes se pôde repetir tão bem aquele adágio latino terrível, “pecunia non olet”, dinheiro não cheira. Ora, talvez por isso o ex-presidente Lula não tenha ido almoçar com Obama em Brasília. É que nesse zoológico, o Brasil precisa pensar sobre o lugar que lhe é designado versus o que deseja ocupar. Bem ao contrário do Napoleão de opereta da França que foi o primeiro a anunciar a operação “Aurora da Odisséia” - que nome horroroso. Mas aí, subitamente, percebi qual é o papel da França nisso tudo: foi escolher o nome do bebê. Já houve a “Tempestade no Deserto” - isso só aqueles grosseiros ianques do Texas para batizar. Agora não. Os franceses-chanéis, os franceses-sorbonnes não podem se contentar com essa pobreza patronímica. Daí essa brilhante, essa reluzente, essa cheirosa homenagem que Homero fugiria correndo, “Aurora da Odisséia”. Mas foi só aí que eu entendi o orgasmo de Hillary. Odisséia é aquela história sobre o herói que volta para casa. Está escutando isso Bill?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

TOBRUK


Um regimento dos granadeiros italianos desembarca em Trípoli entre 10 e 12 de outubro de 1912. Fotografia in La Repubblica, 25/2/11.

Eu sou um Afrika Korps. Estou em Tobruk. Meu sangue alemão dos Schmitz e dos Schwertners ferve, arde, quer vingar meu avô italiano ferido neste deserto, picado por um escorpião feroz. Foi em 1920 quando ele desembarcou na Líbia, transferido para as Tropas Coloniais em Trípoli. Durou 2 anos no deserto inclemente até que um escorpião o picasse. Ele sobreviveu à picada. Eu não. Eu sucumbi, eu padeço, eu grito esta dor. Eu manco. Meu avô derrotado por um escorpião. Inaceitável. Eu embarco agora nos Afrika Korps, eu luto em alemão para vingar os italianos humilhados, os italianos aprisionados. É outra guerra, você já está no Brasil, não importa. Eu viro um rato do deserto, logo eu, um leão, mas eu comando todos os Panzers, eu os faço correr, eu mato, eu venço. Ali onde meu avô sucumbiu, eu conquisto. Ali onde meu avô não foi, eu agora herói, eu Wüstenfuchs, raposa, o marechal de campo, O Libertador, Eu, Erwin Rommel, Führioso. Não haverá mais escorpiões neste deserto vermelho, esburacado, revirado, cemitério a céu aberto. É por você, vovô, é para você. Blitzkrieg. Eu construo falsos tanques com pedaços de árvores e restos de carros, eu, o rei das ilusões, eu ponho os ingleses para correr, amedrontados, despedaçados, ossos espalhados pela areia. Perguntem pelo meu nome em Mersa Brega, em Tripolitania, em Cirenaica, em Benghazi. Perguntem por mim em Bardia, em Salum, em Tobruk. Querido nono, é o que eu te ofereço. Nenhum ferrão irá mais te machucar. Eu, ferreiro, asseguro.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

INCOMPETENTE

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 12/2/2011.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

FANTASIAS

Fotografia de Gabriel de Paiva e reportagem de Fábio Vasconcellos e Rafael Galdo in O Globo, 9/2/2011.

Esses manequins queimados, despedaçados, demonstram que as fantasias são essenciais. Sem fantasia, uma vida não se dá, uma vida não se move, uma vida desbrilha, uma vida se esvai, uma vida morre. Sem fantasia, é depressão, é dor, é a imobilidade do plástico, da pedra, da não-palavra. Sem fantasia, é o pior. É por isso que uma análise promove as fantasias, as estimula, quer ouvir as fantasias, as constrói. Elas são fundamentais.
E, ao contrário do fogo demais que as destruiu na Cidade do Samba, são elas mesmas o fogo do desejo. Sem esse fogo, o desejo empaca, o desejo não desfila, o desejo não deseja. Vida sem fantasia não é vida. Vivam as fantasias!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A VINGANÇA DE IARU

Fonte: Time, 7/2/2011.

O homem que quer ser Kennedy acordou na semana passada como Ronald Reagan! Ora, se Barack Obama é Reagan, quem é Dilma Rousseff? Dilma é...Estela!! E, naquela cena maravilhosa em que ela invoca os antepassados da tribo karuê, quem é Apoena? Apoena é Lula!! E Antônia, a companheira de Apoena? Com quem Lula fez parceria – a trilha sonora, por favor, “vai amigo...” – fez uma joint-venture em seu reinado? Com José Sarney, é claro. Sarney é Antônia – inclusive isso casa perfeitamente com o fato dele ser novamente eleito presidente do Senado – é o pedido de Estela para que seu espírito a proteja de Iaru. Ora, o problema é identificar Iaru. Quem é Iaru, a portadora da maldição? Coube a um francês, o naturalista August Saint-Hilaire, no seu livro “Viagens à Província de São Paulo”, responder: é a saúva. Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Mário de Andrade, no profético Macunaína, retocou: muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são. Infelizmente, é muito metafórico isso. Cai-se com muita rapidez na generalização, “os políticos”, “os corruptos”, e assim por diante. Para resolver este enigma, vejamos algumas características de Iaru: a dor insuportável, uma vontade insana de vingança, um ódio imenso de quem a prejudicou, anda sempre armada até os dentes – e aquela lança em sua mão diz tudo, é uma guerreira. Agora ficou fácil: sofrimento, ódio, vingança, guerra...José Dirceu! Iaru é José Dirceu! É ele a ameaça oculta, a força invisível a pairar feito uma nuvem negra, uma tempestade sobre o governo de Estela. Como? Iaru é uma mulher? Muito fácil. Aquela lança lembra um arpão, arpão rima com anzol, anzol vai para...Ideli Salvatti! Ou será que ela está mais para vó Mariquita?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ARAGUAIA



A melhor novela em cartaz atualmente é Araguaia. Enquanto Insensato Coração é aquele avião do Pedro que foi abastecido errado e caiu antes de decolar – com a exceção maravilhosa da Paola Oliveira, que para sempre será Lívia no meu coração – e Ti-Ti-Ti se arrasta, Araguaia é diferente. Araguaia tem Cleo Pires vivendo esta índia karuê espetacular, a Estela. Nunca antes neste país houve uma índia karuê assim. Apaixonada, fissurada, atravessada pela flecha do gaúcho do bem, o Solano – também flechado no que supostamente seria uma flecha karuê, mas o mistério aqui é magnífico: se a flecha não é karuê, de quem é esta flecha? Há não-karuês presentes nesta história? Mas Estela, esses dias vi de relance um banho seu no Araguaia. Ai, ai, ai. O Araguaia nunca mais será o mesmo depois deste banho. Eu nunca mais serei o mesmo. O banho de Estela foi a cereja no topo do bolo, foi um plus, um brinde, o combo, nada a ver com aquela ventania doida que volta e meia assusta, desampara. Porém, tem o outro gaúcho, o gaúcho do mal, Max – devidamente vingado pela mulher, a Madame Bovary do Cerrado, Amélia, que nome mais equívoco. Pois esta Amélia vive uma mulher de mentira de noite, no travesseiro do Max, e uma mulher de verdade de dia nos braços, na boca, nas pernas, no pelego do Léon, um não-gaúcho como que a dizer que é possível ser feliz com um não-gaúcho – tese no mínimo duvidosa... – aliás, seria pedir demais que a terrível “Falsa Mulher” do indispensável Teixeirinha fosse tocada ao menos uma vez? Mas, onde eu estava mesmo? Nas guampas do bagual, impiedosamente traído, passado para trás. Esta Bovary não perdoa – nem a outra! Serão os ares do Araguaia? As águas? Mas não há só Estela e os trovões, há também no Araguaia poções misteriosas, oferendas, e a maldição que até agora não entendi direito, vai ver porque comecei a assistir tarde, e aqueles espíritos da floresta que não descansam – é a pulsão pós-morte!! A força constante do além!! Sensacional!! E qual é o problema desta índia se apaixonar pelo gaúcho branco? Aliás, há um gaúcho negro na novela que é o avesso do negro Don Juan da novela das 8 – negro de novela das 6 ou é escravo da Isaura ou é escravo de fazendeiro, não tem jeito – ser negro na novela das 6 é uma desgraça! Mas, eu não poderia deixar de mencionar as pedras preciosas da Ametista, da Esmeralda e da Pérola, sempre a mostrar – e como mostram – seus, digamos, talentos malhados, sarados, trabalhados dia e noite, ai, ai, ai, prendas lindas, queridas a botar seus pezinhos nas águas, nos barros e nos barrancos. Falta alguém? Falta. Araguaia tem Janaína, vivida por esta esplendorosa Suzana Pires. Que atriz sensacional! Que mulher mais linda!! Cada vez que Janaína aparece, eu desapareço, eu viro o Fred, eu viro o Solano, eu viro índio karuê, eu invoco os antepassados, eu livro a maldição, eu beijo a Estela – espere. Mas não era a Janaína? Ai, ai, ai...

sábado, 22 de janeiro de 2011

NOBEL

Fonte: The Economist, 20 de janeiro de 2011.

O quadro acima é muito interessante. Mostra o número de prêmios Nobel por país ganhador e, em uma brincadeira ótima da The Economist, pelas principais universidades norte-americanas e uma inglesa. Lá está os Estados Unidos com seus 209 ganhadores de Nobel, seguido de longe pela Alemanha com quase 80 ganhadores, aí a Inglaterra e aí Harvard na frente de França! Sensacional! Os franceses devem estar se contorcendo de raiva! Mais engraçado é ver Cambridge na frente da Rússia!! Aqui já não é tão engraçado – o cripto-fascista do Putin deve estar já de mapa em punho analisando quais são as opções militares, as únicas que ele conhece. Conhece? Pois é, esse é um dos principais problemas do tiranossauro em questão...E o Brasil? Pois o Brasil não tem nenhum ganhador de Nobel, o que é uma tremenda injustiça – demonstração cabal da mais completa ignorância e estupidez dos membros da Academia Sueca que escolhe os ganhadores – pois quem teve um cientista do porte do Dr. Carlos Chagas, o único pesquisador do mundo a descobrir todo o ciclo de uma doença, no caso a doença de Chagas, a anatomia patológica, a epidemiologia, a etiologia, as formas clínicas e os meios de transmissão, então, por que o doutor Chagas não ganhou o Nobel? Porque o Brasil não existe para essas bestas quadradas do hemisfério norte. Isso sem falar das desgraças dos nóbeis de literatura. Ou alguém em sã consciência pode dar um Nobel para Mario Vargas Llosa sem nunca ter dado um Nobel para Jorge Amado, para Érico Veríssimo, para Guimarães Rosa, para Machado de Assis, para Manuel Bandeira - só para ficar nos elementares? Bom, mas voltando à vaca fria, ao balde de água gelada que é essa estatística cruel, eis ali Harvard no topo. Harvard é hoje o ideal do eu de toda universidade que se preze – sim, pois há as universidades que não se prezam, mas isso não é o tema de hoje. Recentemente passou um filme muito bacana sobre Harvard que é “A Rede Social”, candidata ao Nobel do cinema, o Oscar – outra injustiça com os brasileiros – por que “O Pagador de Promessas” nunca ganhou um Oscar? Por que “Bye Bye Brasil” também não? E aquele maravilhoso “Mulher Objeto” com a inesquecível, a maravilhosa Helena Ramos – aquelas coxas não mereciam mais de um Nobel? Ignóbeis! Bom, mas “A Rede Social” mostra algo fundamental: a melhor universidade do mundo não é nada sem o desejo do aluno. O que fez aquele pobre diabo inventar o facebook? Foi a vontade de aplicar os conhecimentos obtidos nas aulas maravilhosas, foi a vontade de ganhar milhões, foi a vontade de virar capa da Time – coitado –, foi a vontade de se aposentar sem mamar na teta do Estado? Não. Foi o fora da namorada, foi a perda do amor de sua vida. Como dizia aquele filósofo brasileiro, o Totó, “punto e basta”. Foi a angústia de se deparar com a não-relação sexual, a impossibilidade de fazer contato – me lembrei do “ET” vendo o filme, só que o diretor da Rede Social é muito melhor que o Spielberg – este ET nunca vai voltar para casa. Essa é a tragédia em questão. Não há bicicletinhas voando no final. Há a perda, há o desnorteamento, há a ausência, há a dor. Grande final – não vou contar para não atrapalhar. Mas aquilo que ele não vê na tela do computador é o que não pode ser ensinado em uma universidade. À análise, senhor Zuckerberg. Sete sessões por semana. Como? Em dólares, é claro.