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quarta-feira, 1 de junho de 2011

FUROR

“Leviathan”, a escultura de Anish Kapoor para a exposição Monumenta no Grand Palais des Champs Elysées em Paris até 23 de junho. Fotografia de Benoit Tessier/Reuters in The Guardian, 10/5/2011.

“Quando se ergue, as ondas temem
e as vagas do mar se afastam.”

Livro de Jó, 41:17 in A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulinas, 1987, p. 940.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

BALANGANDÃ

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 18/5/2011.

Na maravilhosa charge de Chico Caruso, eis que o ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, vem dar seu apoio moral ao chefe do FMI, Dominique Strauss-Kahn. É que no mesmo dia da prisão de Strauss-Kahn, o ator admitiu ter tido um filho com a empregada da casa. Ora, há uma diferença enorme entre o ato de Schwarzenegger o e o ato de Strauss-Kahn. Até onde se sabe, houve atração mútua e consentimento para Schwarzenegger e houve estupro no caso de Strauss-Kahn. Porém, uma questão toca a ambos. É aquela que o gigante Dorival Caymmi imortalizou: o que é que essas baianas têm? Uma camareira, a outra empregada. E as duas desequilibraram, desnortearam, enlouqueceram esses homens. Será que foram os torços de seda delas? Será que os brincos de ouro? Ou as sandálias enfeitadas? O que leva um homem a cair por cima de uma mulher? Aqui Caymmi novamente é brilhante. Ele diz: “quando você se requebrar, caia por cima de mim”. É tão lindo isso. Há um pedido em jogo, e não a violência. Há condição, a espera, esse “quando” magnífico. Para além de querer interpretar algo que só pode ser feito escutando um por um a esses homens, o pedido de Caymmi é que essa baiana caia por cima dele – não é ele que cai sobre ela. O conjunto dos homens não cai, pois não requebra, é duro, é inflexível. Daí esse “we”, esse “nós” que supostamente simbolizaria a força, o poder, porém Caymmi sorri e acrescenta...a força de fazer um pedido. A queda está do lado delas, essas que não fazem conjunto, pois não ficam paradas no mesmo lugar, e por isso requebram, como requebram, daí a força do sexo feminino. Daí o pedido dos fracos, dos masculinos, onde cair também quer dizer ficar caidinha por esse homem, significa parar por um momento a deriva ou, quiçá, para sempre, e agora recobrir esse homem, grudar em sua pele, o dois virar o um – e aí, só aí, pode-se responder o que é que a baiana tem. Ela tem aquilo que me falta, aquilo que não tenho, aquilo que busco, aquilo que não sou, aquilo que vai me completar. Ela tem o bom fim do amor.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O DEMÔNIO DO SEXO

“Inteligência, prestígio, poder – Um homem de grande destino queimado pelo demônio do sexo”
Fonte: Bernardo Valli in La Repubblica, 16/5/2011.


Cada país noticiou a prisão espetacular do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, por crime sexual (estupro) contra uma camareira de um hotel de Nova Iorque à sua maneira. Mas ninguém supera a Itália quando se trata de sexo. Só lá você vai encontrar o “demônio do sexo” à solta! Sensacional!! É claro que, se estivéssemos na Grécia, o demônio significaria outra coisa, como em Sócrates por exemplo – ali, “daimon” quer dizer uma força superior ao sujeito. Na Itália não. Não se vive ao lado do Vaticano de graça. Demônio na Itália quer dizer o tinhoso, o arrenegado, o pimenta, o maligno, o cujo, o tição, o cão, o coisa-à-toa. Alguns detalhes picantes retirados da reportagem do enviado especial do La Repubblica, Angelo Aquaro: aconteceu quando a camareira da suíte imperial do 28o. andar do sofisticadíssimo Sofitel de Times Square, de 32 anos, negra, foi chamada para limpar o quarto “vazio”, porém, surpresa, apenas tendo adentrado nesta câmara ardente, sai do banho, nu em pelo, este Mr. Jones com o diabo no corpo, sem Prada nas vestes, com o tridente à vista, já caindo literalmente sobre ela tentando sodomizá-la primeiro, ela lutou, saiu correndo, ele a pegou de volta – o diabo não descansa – e aí fez ela se ajoelhar e a rezar pela sua cartilha, sejamos explícitos – noblesse oblige – a obrigou a provar da maçã. O demônio do sexo, tal qual Lucrécia, saciado sim, satisfeito nunca, foi embora temporariamente. Instalado confortavelmente na primera classe do voo da Air France para Paris, ei-lo retirado à força do avião e obrigado a prestar contas – logo ele, aquele que cobra as contas dos devedores, dos pactantes – à polícia de Nova Iorque. Do paraíso à delegacia de polícia. Haverá lugar mais simbólico para um diretor do FMI se explicar?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

HÁ DIFERENÇA SEXUAL

Fotografia de Pete Souza, fotógrafo oficial da Casa Branca, na “Situation Room” [Sala de Controle] da Casa Branca no dia em que o terrorista Osama Bin Laden foi morto.

Enquanto a fanfarronice masculina do planejamento, da operação, das armas, da elite da elite dos SEALS, a força mais especial treinada sob o lema “o único dia fácil foi ontem” se impõe como vencedora, a intrigante presença de Hillary Clinton na fotografia do dia D contra o terrorismo, na sala de controle da Casa Branca, em Washington, acompanhando em tempo real a morte de Bin Laden, com a mão na boca – depois ela revelou que cobriu a boca por causa de uma tosse devido à uma de suas alergias de primavera – revela uma Madonna que não reconhece seu filho mas, ainda assim, o vê de modo diferente dos demais naquela sala predominantemente masculina. A tosse de Hillary Clinton merece destaque. Ela fala da diferença sexual, ela diz mais do que parece. Um outro dado muito interessante nesta fotografia que o genial José Miguel Wisnik em sua coluna do Globo de sábado comparou à Velásquez e sua obra “As Meninas”, é que aquilo que não nos é mostrado, não nos é dado a ver, trata-se de uma voz. Da voz do diretor da CIA, que do outro lado do rio Potomac, em Langley, na Virgínia, sede central da CIA, relatava o ataque à casa de Bin Landen. Ora, que todos nesta sala estejam como que subordinados à voz deste Supereu maluco e desgovernado que é a CIA, causa perplexidade. É como se o poder civil de um presidente estivesse de lado, aliás como a fotografia mostra muito bem. Na cadeira do presidente não está o presidente, mas sim o general da Força Aérea e comandante das Forças Especiais, Marshall B. “Brad” Webb. Aliás, cabe aqui uma brincadeira séria: para combater a rede al-Qaeda, nada melhor que um Webb [Rede]!!
Ora, a tosse de Hillary Clinton aponta para esta desarmonia evidente, mas não falada. A tosse fala, a tosse interrompe o gozo masculino, a tosse pede passagem, a tosse questiona, a tosse faz mancha neste quadro. A propósito, só há mais uma mulher na foto, Audrey Tomason, diretora da luta contra o terroristmo, em pé. Mas é Hillary Clinton quem tosse. Ela é a encarnação da feminilidade nesta tosse. Ao contrário do que pode parecer, sua tosse não é fingimento. Ela revela outra fragilidade em questão. A fragilidade de um poder civil nas mãos do poder militar.

“- Hillary Clinton disse que viveu os 38 minutos mais intensos da sua vida.
- B
ill Clinton respondeu: “Então comigo foi fingimento?”
Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, Buenos Aires, 9/5/2011.

quarta-feira, 9 de março de 2011

VILA ISABEL

Thatiana Pagung como a Ninfa antes de virar Medusa, no desfile da Vila Isabel, em 6/3/2011. Fotografia de Felipe C. Neil/Agência O Dia.

Lágrimas brotaram de meus olhos quando vi Thatiana Pagung como Ninfa na Vila Isabel. Não só isso. Quando ouvi sua voz, escutei suas palavras na dispersão da escola, fui transportado para outro lugar. Pois ela falou em feitiço, ela falou no poder feminino de encantar um homem – e eu ali de lado, eu ali misturado nos seus cabelos, só conseguia mover a cabeça concordando – minha visão cega, meu sangue imóvel, eu-pedra, uma rocha só. Pouco antes, lá estava ela, a Thatiana, na comissão de frente da Escola que trazia a Medusa em segundo plano, uma Medusa ameaçadora, apavorante, terrível. No entanto, à frente da frente, eis a Thatiana-Ninfa, a ainda-não-Medusa, esse instante precioso em que uma moça vira núbil, aquela que está pronta para o casamento, um modo grego de chamar uma mulher de virgem. Eis o ponto. Thatiana como a virgem, não a Maria – estamos muito longe da pudica Beija-Flor, com aquele horroroso Cristo-Carlos, um pesadelo – mas uma virgem acolhedora, uma virgem ajudante de Perseu nos segredos de como lidar com seu lado Medusa. Eis o segundo ponto. Uma mulher é sempre Ninfa e Medusa. Aliás, quem melhor viu isso foi o jornal Meia-Hora do Rio. Em sua antológica primeira página do dia 8, trazia a seguinte manchete: “Sapucaí de perder a cabeça – Mulherada tá sem freio no carnaval do Rio”. Genial! Enquanto o recalcado O Globo trazia pífias notícias e fotografias do carnaval, os psicóticos Folha de São Paulo e Estado de São Paulo faziam de tudo para negar a existência do dito cujo. Vade retro! Já no Meia-Hora, esse sensacional “mulherada tá sem freio”. Ora, não é só no carnaval que a “mulherada tá sem freio”. Essa é a própria condição feminina – daí uma das razões que levaram Lacan a escrever sua tese de doutorado jamais aceita nas universidades em uma única frase: “não há relação sexual”. Os doutores e pós-doutores estão irados até hoje com isso – como apresentar uma tese em uma linha, quando eles, para não dizerem nada, escrevem 200 páginas? Já os leigos pulam das cadeiras. Como assim? Não se trepa mais? É que Lacan distingue o ato sexual da relação sexual. No caso em questão, pode-se levar uma ninfa para a cama, porém a Medusa quer algo “a” mais. Aí vem o neurótico obsessivo do Perseu com a solução mágica de matar a Medusa! É a antiga solução daquele bandido de Elêusis, o Procusto – cortar fora ou esticar até caber na cama. O único senão deste método antes de Descartes é o de matar a ninfa junto. Ora, respondem os sábios-homens, a fila anda – é a resposta daquele mestre chamado Don Juan. Retornando à Vila Isabel, à morada da Isabel, a estes cachinhos dourados da diferença, ondulantes, serpenteantes, desenfreados, o problema masculino está no medo de perder a cabeça. É que os homens também são, a seu modo, virgens. Eles querem possuir sem serem possuídos, sem perder nada – como se a perda devesse ficar para a mulher – é por isso também que eles formam um conjunto, o conjunto daqueles que tem a força, os He-Men, ao contrário das hímen-virgens, que não formam conjunto. De minha parte, desconjuntado há tempos, dancei com Thatiana, isabelei-me de vez. E não acaba na quarta-feira.




Fonte: Meia-Hora, Rio de Janeiro, 8/2/2011.

domingo, 6 de março de 2011

RUMO À ESTAÇÃO BURACO QUENTE


Lilian Duarte, que sairá no abre-alas da Mangueira, por Fabio Rossi, produção de Rosângela Alvarenga, Fabíola Félix e Paulo Robert na coluna de Ancelmo Gois in O Globo, 6/3/2011.

Será na passagem do hoje para o amanhã. Querendo homenagear Nelson Cavaquinho, a Mangueira vai falar do buraco quente. Não há metáfora mais linda para o carnaval do que o buraco quente. De um lugar geográfico para o sexo feminino, o buraco fala do morro e do que convida ao preenchimento, à ocupação, ao infinito dessa Lilian Duarte, linda demais, a expressão querida desse buraco muito quente da falta, do que ainda não é e não será, porém, tentar chegar é a própria vida, o movimento, a força constante de ali fazer morada, habitar o buraco, passear por ele e retornar, e voltar, e dar as voltas ao redor dessa quentura, apalpá-la, acariciá-la, circum-navegá-la na boa esperança de ali fazer o ninho, a dobra do cabo, sem eira nem beira. Quem disse que o carnaval é sempre a mesma coisa acertou. É sempre o buraco quente, no buraco quente, pelo buraco quente, em direção ao buraco quente. Todo carnaval é a comemoração deste fracasso espetacular. Da não chegada, do ainda não desta vez, do fica para a próxima. Viva o carnaval! Fracassar significa viver.