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sexta-feira, 13 de maio de 2011

INIMIGO DO POVO

“É o símbolo das revoluções” - China proíbe o jasmim – Proibida a venda e censura na internet: a flor virou uma fora da lei”
“Com medo da revolta, China cancela o jasmim – A repressão chinesa identificou seu último inimigo: o jasmim. Nos últimos dias, além da prisão de dissidentes, se acrescentou uma nova ordem da polícia: extirpar a cultivação da flor-símbolo da nação e proibir o comércio dos brotos que na China evocam harmonia e prosperidade”
Fonte: Giampaolo Visetti in La Repubblica, 12/5/2011.


Depois que o jasmim se tornou o símbolo da revolução na Tunísia, o governo chinês decidiu agir. A partir de agora, o nome “jasmim” está proibido. Foi extirpado da internet ao mesmo tempo que os bilhões de funcionários do Serviço Secreto, desde o dia primeiro de março, percorrem os mercados de flores do país inteiro para advertir os vendedores que o jasmim deve sair de circulação imediatamente. Queimem, enterrem, explodam os jasmins. É que, como diz brilhantemente Giampaolo Visetti, desta vez os comunistas chineses se depararam com um problema terrível. Eles não puderam aplicar em cima do jasmim aquilo que eles estão acostumados a fazer com as pessoas. Não puderam prendê-los nem torturá-los nem começar um processo de reeducação – o sonho do comunista chinês: ver um jasmim bater no peito e admitir sua culpa, andar de joelhos pelas principais ruas e avenidas da nação com uma placa nas costas, “sou um inimigo do povo”. Não puderam fazer com o jasmim o que estão fazendo com o prêmio Nobel da paz, Liu Xiaobo e com o artista Ai Weiwei: deixá-los atrás das grades até que confessem ser agentes do imperialismo ianque. Pobre China. O que será que eles vão fazer quando Gelsomina entrar em cena no magnífico A Estrada da Vida de Fellini? Alternativa a, vão mudar o nome dela para Chun? Chun? Espere, isso quer dizer primavera, primavera lembra flor e, desgraça, lá vem o jasmim de novo. Não serve. Alternativa b, vão colocar uma bola preta sobre a imagem dela e apagar sua voz – não existe mais essa personagem? Alternativa c, vão recolher todos os dicionários de italiano-chinês, para evitar a descoberta de que Gelsomina deriva de jasmim? Alternativa d, proibir todos os filmes de Fellini? Que patético fim para o comunismo. Jogo agora um buquê de jasmins sobre esse cadáver insepulto. Já vai tarde.

terça-feira, 10 de maio de 2011

MAIS-VALIA

Fonte: Érica Fraga e Claudia Rolli in Folha de São Paulo, 8/5/2011.

Como? Jornadas de trabalho longas, horas extras frequentes, teleconferências de madrugada, vigilância constante dos chefes, metas de produção irrealistas e inegociáveis? Mas os porcos capitalistas não eram os americanos?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

MARCO POLO

Uma tumba riquíssima em uma área de mais de 150 metros, com três níveis e mármores em Chengdu, província de Sichuan, China. Fotografia de Sim Chi Yin na reportagem de Sharon LaFraniere, “China Curbs Fancy Tombs That Irk Poor” [China reprime tumbas extravagantes que irritam os pobres] in The New York Times, 23/4/2011.

Para George Orwell

Todos são iguais. Alguns são mais iguais.


Fonte: The New York Times, 23/4/2011.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

QUEM TEM MEDO DA PULSÃO?

Fonte: primeira página do Globo, 10/1/2011.

Há um instante em Édipo Rei de Sófocles em que, ao saber de Tirésias que ele, Édipo, é o matador buscado, o assassino do rei, logo, o causador da peste que assola a cidade, a causa do mal, Édipo faz a seguinte pergunta a Tirésias:

“ÉDIPO:
Creon armou o ardil ou é obra tua?” (Édipo Rei de Sófocles na tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 55)

Essa pergunta sempre retorna na política. Por exemplo, agora nos Estados Unidos. O que o Tea Party tem a ver com o atentado contra a deputada do Partido Democrata? A resposta é: nada. Querer que Sarah Palin, o Creonte da vez, se cale ou modere seu discurso é acreditar no pior remédio inventado nos Estados Unidos contra a política e a vida cotidiana: a praga do politicamente correto. Juliana Vaz e Marco Rodrigo Almeida trouxeram na Folha de São Paulo de sábado a notícia de que a obra “As Aventuras de Hucleberry Finn” ganhou uma “nova versão” corrigida por um professor universitário – pasme! – em que ele substituiu a palavra “nigger”[negão] da obra original por “slave” [escravo]. Imaginem o que esse professor vai fazer com Shakespeare! Ou com a Bíblia! Pois bem, deve-se censurar esse professor? De jeito nenhum. Que publique, que vá à praça pública defender seu trabalho, que funde uma universidade, que frequente o Tea Party. Porém, o mesmo vale para cada um que defender o contrário dele, que quiser fundar o Caipirinha Party, a Feijoada Party ou publicar o que lhe der na telha. Isso já existe nos Estados Unidos e é uma das coisas mais lindas de lá – infelizmente ausente no Brasil, ver neste quesito o processo da Folha de São Paulo contra o blog Falha de São Paulo, terrível, ou então a retirada e processo legal contra quem publica livros ou panfletos considerados racistas ou nazistas no Brasil. Ter uma fantasia racista ou nazista não significa ser um criminoso. Aliás, como prevenir esse tipo de crime acontecido nos Estados Unidos? A resposta é: o Estado nunca vai conseguir prever ou impedir de acontecer um surto psicótico, um surto neurótico ou um surto perverso – diferente de combater um grupo armado terrorista. Surto significa descontrole – causado por qualquer coisa que seja significante para o surtado – pode ser a letra de uma música tocada por um vizinho, pode ser a cor de uma camisa, pode ser o nome de um supermercado, enfim, hoje foi a deputada democrata, amanhã pode ser um senador republicano, depois de amanhã um colega da escola, e assim por diante. Querer impedir isso de acontecer é querer abolir a pulsão da esfera humana. O que é a pulsão? É a deriva, é o incontrolável, é o feio, é o errado, é o bizarro, é o trash e também o sublime, o bonito, o diverso, o inesquecível humano, demasiado humano, o avesso do instinto. O comunismo tentou barrar a pulsão por decreto. Deu certo? Então que o leitor imagine o que é viver sob o regime de Vladimir Putin ou outro escroque qualquer, Chávez, Fidel ou o antigo camarada Mao – China agora “modelo” de educação para o mundo – pasme de novo! – porque suas crianças tiram as melhores notas nos testes de matemática e de ciência! Ora, como é que um prisioneiro obrigado a estudar 16 horas por dia pode ir mal numa porcaria dessas?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

MANHA

Pintura policromática de Hu Cheng-yen, China, ca. 1619, no livro Shih Chu Chai Hua Pu [“Ten Bamboo Studio Manual of Painting”].

“Mattina
Santa Maria La Longa il 26 gennaio 1917

M’illumino
d’immenso”

“Manhã
Santa Maria La Longa, 26 de janeiro de 1917

Ilumino-me
de imenso”

Giuseppe Ungaretti in A Alegria. Rio de Janeiro: Record, 2003, pp. 126-127. Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti.